Han, Heung, Sarang. Saudade, Alegria, Amor. Três atos do show do BTS, uma história de amor à música e ao ARMY.
Primeiro é o som.
Antes do portão abrir, antes de qualquer luz acender no palco, o que existe é o zunido de dezenas de milhares de pessoas ocupando as ruas ao redor de um estádio. Gente que lutou para comprar um ingresso. Gente que enfrentou a fila quilométrica. Gente que esperou por anos. Nós, os hooligans.
Aí o portão abre e então se faz a luz. E o visual, o movimento e a força.
É a partir desse momento que a gente entende que toda aquela campanha de pré-lançamento do álbum ARIRANG perguntando “qual é a sua canção de amor?” tem uma resposta em forma de show. É tudo sobre amor, sempre foi desde início: amor à música, amor entre aqueles 7 amigos, o amor que une o maior fandom do mundo ao maior de todos os grupos.
Este artigo não é só um relato do que acontece no palco. Você já viu, seja pelas transmissões oficiais, seja pelas fancams que pipocam nas redes. O que a gente quer aqui é o outro lado: as escolhas de produção, as referências escondidas, os motivos por trás de cada decisão. Aquilo que a gente não vê direito na hora, mas sente mesmo assim.
Porque o BTS não faz só um show. Ele conta história.
Um mapa em três atos
Arirang Tour, o show do BTS, é dividido em três blocos, cada um com nome e, mais do que isso, significado. O diretor da turnê explicou à Weverse Magazine que a estrutura foi organizada em três subtemas coreanos. Guarde essas três palavras:
한 (HAN) é uma palavra que não tem tradução exata (talvez o equivalente à nossa “saudade”, que também não tem tradução em nenhum outro idioma): HAN é uma tristeza acumulada, uma mágoa histórica, um peso que se carrega e que atravessa gerações, mas também significa resiliência e esperança. Muito coreano. Muito BTS.
흥 (HEUNG) é quase um oposto complementar: se HAN é a sombra da alma coreana, o Heung (흥) é a sua luz solar. É conceito cultural de alegria genuína, entusiasmo exuberante, paixão e espontaneidade coletiva. É aquela energia contagiante que faz você querer dançar, cantar e celebrar a vida, mesmo quando as coisas estão difíceis. Han e Heung parecem opostos, mas na verdade funcionam como uma engrenagem na cultura da Coreia. O Heung é a forma como os coreanos historicamente canalizam, aliviam e superam o Han.
사랑 (SARANG) é amor. Simples assim.
Tudo isso diretamente ligado à ARIRANG, tanto a canção folclórica coreana quanto o álbum do BTS. “Arirang”, a música, é triste enquanto te anima a continuar. ARIRANG, o álbum, te faz dançar sem deixar de pensar e sentir.
O show inteiro é essa travessia. Da dor para a festa, e da festa para o amor.
Vamos juntos.
ATO 1 · 한 (HAN)
Antes da primeira nota: a chegada como ritual
Em vez do formato clássico de exibir videoclipes enquanto a plateia se acomoda, o BTS optou por um VCR em loop com três camadas:
Seoye, a pintura caligráfica tradicional coreana, com visual que remete a nanquim sobre papel. Hanji, o papel artesanal coreano, como fundo. E gugak, música instrumental tradicional. Emoldurando tudo isso temos o som do gayageum, a cítara coreana de doze cordas, tomando conta do estádio.
Essa escolha dá o tom grandioso da chegada. Em vez de clipes convencionais, você tem contemplação e preparação. É denso, é lento, é culturalmente carregado, e é radicalmente diferente do que se espera de um show de K-pop.
Aliás, a gente vai notar daqui em diante que tudo na turnê ARIRANG quebra padrões do K-pop, padrões estes estabelecidos pelo próprio BTS e copiados à exaustão.
BTS 2.0 rompe todas as tradições, paradoxalmente, trazendo para o palco a tradição coreana.
O palco de 360 graus: a decisão mais radical da turnê
Enquanto o gugak toca, dá tempo de olhar em volta e perceber o mais óbvio, que também é o mais revolucionário: não existe frente e não existe fundo.
O palco fica no centro do estádio. Todo mundo é plateia principal. Aquela lógica cruel do “setor bom” e do “setor ruim”, que define a experiência de qualquer show de estádio, simplesmente deixa de existir.
Do ponto de vista de produção, isso é um pesadelo. Coreografia precisa funcionar em todas as direções. Iluminação não tem onde se esconder. Não há costas para dar ao público. Cada movimento precisa ser pensado 360 (milhões) de vezes.
j-hope, um dos responsáveis pela ideia do palco 360, descreveu o processo assim, no Weverse:
“O BTS fez muitos shows ao longo dos anos, então a gente se esforçou para encontrar uma solução que fosse pelo menos um pouco mais próxima da resposta perfeita do que da resposta absoluta. Como era um estádio, tivemos que considerar o impacto do clima, e houve muitas reviravoltas porque tínhamos que prestar atenção em todo o palco, incluindo mudanças de direção durante a apresentação. No começo, tudo era assustador e a adaptação não foi fácil. Mas eu só pensava no estádio lotado de BTS e ARMY.”
A estrutura tem passarelas que saem do centro em direção às quatro pontas, permitindo que os sete circulem por todo o estádio. Há elevação de partes do palco em momentos específicos, e o conjunto foi projetado para garantir visão desobstruída de qualquer setor. O próprio palco faz parte da grande contação de histórias que é a turnê do BTS.
O BTS não inventou o palco 360, mas fez algo diferente com ele
O formato 360 já foi utilizado por alguns artistas ocidentais, como U2, mas no K-pop, somente BTS e TWICE ousaram, sendo o palco do BTS imensamente mais desafiador, devido às suas proporções gigantescas e mais de 600 toneladas e 300 pessoas na equipe.
Além disso, para o BTS um palco é mais do que uma plataforma. O palco é a Coreia do Sul.
Esta é uma das coisas mais bonitas da produção, e uma das que menos se percebe, principalmente se você não é coreano e, portanto, não possui culturalmente as referências.
O palco central foi inspirado no Gyeonghoeru, o pavilhão de banquetes reais do Palácio Gyeongbokgung, em Seul. É o lugar onde os reis da dinastia Joseon recebiam convidados e ofereciam festas. A ideia, segundo a produção, era reimaginar um banquete comunal em contexto moderno: os sete cantando e dançando ali em cima com o mesmo espírito festivo.
A parte superior da estrutura foi desenhada para lembrar o telhado de um nu, pavilhão tradicional coreano do tipo jeongja. E como se tudo isso não fosse o suficiente, vista de cima, evoca o contorno do logotipo do BTS.
O anel central é inspirado no taegeuk, o símbolo vermelho e azul no meio da bandeira sul-coreana. E as hastes que se estendem em todas as direções foram inspiradas nos geon-gon-gam-ri, os quatro trigramas pretos dos cantos da bandeira.

Isso não é decoração. É uma declaração de origem. E de princípios. Explicado como funciona o palco, vamos à história que é contada nele.
Hooligan: A história começa a ser contada pelos “bagunceiros”
Um hooligan solitário, sinalizador aceso na mão, invade o campo. A introdução começa. Os grafismos em hanji no telão de LED são consumidos pelas chamas. Mais hooligans se juntam, tomam o palco, e uma fumaça densa se espalha tingindo de vermelho as cadeiras da plateia.
Quando os sete rompem o caos e se posicionam no centro, a primeira música do show começa.
Quem está no palco é um BTS mais maduro, que quebra os parâmetros estabelecidos por si próprio, sem medo. É BTS 2.0. A intenção era criar uma cena de entrada com vitalidade e intensidade brutas, nunca vistas antes, incorporando a ambição de virar o jogo de novo, já que se trata do comeback mais esperado das últimas décadas, não só no K-pop, mas em toda a indústria musical.
Foi j-hope quem destacou, no artigo do Weverse:
“Todos nós temos certas formas de fazer as coisas, certos padrões nos quais caímos ao longo dos anos, mas tentei muito me afastar de bastante disso. Já que sou eu que dou o pontapé inicial com a abertura de ‘Hooligan’, senti que era essencial que isso batesse forte. Por isso, tenho tentado trazer um pouco mais de energia para o aspecto performático.”
E, com a autoironia de sempre:
“Não sei se isso está realmente funcionando, mas felizmente parece que já superei o peso disso em mim (risos). Agora estou tentando me sentir um pouco mais confiante, começando as coisas mais no meu próprio ritmo.”
A ruptura é encenada. Você é levado do gugak tradicional ao caos em questão de segundos.
Aliens: Alienígenas no palco
“Do 가 ao 힣, olhem e aprendam, sim, somos aliens”
O estádio inteiro ganha tons de verde e partes do palco se elevam. É um dos efeitos cenográficos de grande escala da turnê, e complementa a metáfora da música: o BTS como corpo estranho e único dentro da indústria global.
O verso acima é uma piada linguística que só funciona em coreano. 가 é a primeira sílaba possível do alfabeto coreano, 힣 é a última. É o equivalente a dizer “do A ao Z”.
Estamos todos convidados a entrar na casa do BTS, “mas tire seus sapatos”.
Run BTS: Corre!
“Corre, à prova de balas, corre, corre, você tem que correr”
O megassucesso “Run BTS” foi reinventado e encaixou perfeitamente nessa primeira parte, como ato de confronto e resistência.
Na parte em que j-hope canta “Jimin, V, trabalho duro / Namjoonie, Hobi, trabalho duro / Yoongi hyung, Jin, trabalho duro / Jungkook, pessoal, muito obrigado”, a câmera percorre os rostos dos membros um por um. É gesto de conforto e reconhecimento das lutas passadas de cada um. Não é sutil, e não é pra ser.
E tem o drone. Jung Kook segura um drone durante a performance, e a cena viralizou porque parecia improviso puro. Não era. Ele explicou:
“Essa parte foi deliberadamente orquestrada. Acabamos tentando com base em uma ideia que o diretor teve. O drone, na verdade, caiu no chão sem querer quando estávamos ensaiando. Estou sempre preocupado que vou deixar cair (risos)”.
they don’t know ‘bout us: todo mundo usa máscaras
“Eles não sabem nada sobre nós”
Dançarinos seguram telas nas mãos com imagens das máscaras (em coreano, tal) tradicionais, no estilo hahoe, reinterpretadas digitalmente, que se dispersam pelo palco. É cultura tradicional filtrada por tecnologia contemporânea, que é basicamente o resumo estético da turnê inteira.
Nossos alienígenas bagunceiros (hooligans) sabem que não são compreendidos, muito menos aceitos, mas não se intimidam e continuam.
Like Animals no palco
Os tablets manipulados pelos dançarinos parecem se movimentar de forma agressiva na transição para “Like Animals”, ao mesmo tempo que, paradoxalmente, o Bangtan se recolhe e canta com doçura, sem perder a força. Yoongi numa pegada emo de cortar o coração, Jin com aquele canto de sereia que enfeitiça. Ao vivo, é um ataque aos sentidos.
Fake Love: além da interpretação mais simples
“Estou tão cansado desse amor falso”.
Na montanha russa emocional da turnê do BTS, depois da calmaria dolorida de “Like Animals”, o Bangtan se rebela novamente e grita que não quer mais saber desse “amor falso”.
“Fake love” nunca foi só uma canção de amor triste (embora até possa ser lida assim, num primeiro momento), mas principalmente uma declaração de como as aparências enganam e assim encaixa perfeitamente neste primeiro ato e sua densidade. Combina direitinho com “they don’t know ‘bout us” e “Like Animals”, né?
Além disso, a música ganhou um novo arranjo, mais agressivo. O passado não é nostalgia, mas releitura criativa.
SWIM: a delicadeza no palco
“Eu poderia passar a vida toda te observando”
No palco, os dançarinos manipulam com delicadeza tecidos brancos que ondulam sob luz azul, cobrindo a estrutura central como água, tecendo formas incertas em torno dos membros, como se tentasse protegê-los.

Então vem ela, a faixa-título emocional do álbum, single de lançamento de ARIRANG e dona da coreografia que emociona pela beleza, SWIM. As águas podem ser turbulentas, mas o BTS nos convida a continuar nadando. Que escolha temos, certo?
RM já havia descrito a faixa como algo que não é nem uma ordem nem uma recomendação, mas a descrição de um estado: alguém que está cansado, até pensa em desistir, mas não faz isso porque vale a pena continuar.
Na entrevista ao Weverse, ele contou como esse sentido continua sendo construído:
“O significado de ‘SWIM’ continua sendo refinado ao longo de toda a turnê. Entramos em um futuro que não vimos chegar, e mesmo com todas as reviravoltas, de alguma forma continuamos seguindo em frente, batida por batida. Acho que a vida realmente é só uma série imperfeita e contínua de ondas que a gente nunca vê chegar, desse jeito. Quando ‘SWIM’ começa, às vezes eu tiro meu fone in-ear e simplesmente escuto a plateia. Isso me ajuda a realmente entrar no clima para quando meu verso chega.”
Merry Go Round: presos e girando
“Eu não consigo sair desse carrossel”
Merry Go Round fecha o primeiro ato com um tom psicodélico e melancólico.
Os mesmos tecidos brancos de “SWIM” continuam em torno dos 7, agora iluminados em lilás e dispostos em formas que lembram pétalas girando. O recurso recria o seungmu, a dança de monges budistas, em que mangas longuíssimas de tecido branco desenham o ar.


Enquanto os dançarinos tecem formas difusas em torno deles, o próprio Bangtan gira sobre o palco enquanto canta. Terminado o carrossel, eles saem discretamente cobertos pelas grandes pétalas de tecido branco. O som os acompanha para fora do palco. Há um certo peso no ar, e é proposital.
O VCR dos sete elementos: tudo o que você achou lindo, mas não necessariamente entendeu
Este é, provavelmente, o segmento mais bem construído da turnê do ponto de vista simbólico, e o que mais a gente assiste sem entender inteiramente, pelo menos numa primeira olhada.
O primeiro VCR associa cada membro a um elemento natural ou cósmico, com ligação direta com a bandeira coreana, a Taegeukgi, composta por três elementos principais, cada um com um profundo significado filosófico: um pano branco, quatro trigramas e o emblema Taegeuk (aquele círculo vermelho e azul ao centro), que representa os conceitos do Taoístas de dualismo equilíbrio e harmonia (Yin e Yang).
O VCR é uma espécie de ponto de inflexão narrativa, uma pausa quase filosófica num show de K-pop. Coisas que só um BTS mesmo pode ousar fazer.
É uma combinação alucinante de imagem no telão, com dançarinos se movimentando no palco e sons poderosos e envolventes, então não é à toa que a gente não entende logo o que está acontecendo. Mas sente, e essa a intenção.
Mas como fica mais legal quando a gente entende também, vamos explicar no detalhe, pois vale a pena.
As primeiras cenas, com uma música etérea, traz imagens dos 7 membros se mesclando a efeitos que emulam a “wash painting”, uma técnica de pintura que na Coreia é chamada de sumukhwa, basicamente tinta preta à base de carvão diluída em água sobre papel de arroz ou seda.
As imagens moldadas como água não chegam a se formar totalmente e se desfazem em areia, um sinal do tempo que passa, mas também evoca que precisamos desse mesmo tempo para evoluir.
Os quatros elementos principais da natureza, Ar, Terra, Água e Fogo, são personificados por RM, V, Jimin e Jung Kook.
Sob imagens de tecidos esvoaçantes, RM é o Ar. Enquanto ele aparece etéreo no telão, os dançarinos esticam os grandes tecidos esvoaçantes. Sua imagem se desfaz num sopro. Na bandeira coreana, o Ar (Céu) é o Trigrama Geon, que simboliza humanidade e justiça.
Então ouvimos a chuva chegando e batendo com força nas pedras. A luz desenha raios no chão do palco, como se tentasse rachar ele ao meio, enquanto ouvimos batidas como de trovão. O mood sereno muda completamente. Então vemos V, que traz a Terra, com sua dualidade: estabilidade e instabilidade (quando é atingida pela própria natureza). Seu rosto aparece sólido, mas é tomado pelos efeitos do “wash painting” e racha enquanto ouvimos tambores cada vez mais fortes. Na bandeira coreana, a Terra é o Trigrama Gon e significa fertilidade e apoio.
Vem então a calmaria, com Jimin como Água, com imagens azuis fluídas em torno dele, se desfazendo como se fossem líquidas. Os dançarinos se movimentam com capas translúcidas, como seres aquáticos em meio a efeitos de luz que lembram ondas ou círculos, quando jogamos pedras sobre as águas. Na bandeira coreana, a Água é o Trigrama Gam, e traz a ideia de sabedoria e serenidade.
A calma cede novamente (Yin e Yang, lembram?). Jung Kook é Fogo. Ele aparece agressivo, peito à mostra, sob luz vermelha e tambores incessantes. Chamas tomam conta do palco. A imagem de Jung Kook se monta e desmonta entre os efeitos de luz. Na bandeira coreana, é a parte vermelha do taegeuk e significa energia e ação.
Os outros membros aparecem complementando os elementos da natureza. j-hope, completa o Fogo com a luz do Sol, representando a sua própria personalidade e a alegria.
SUGA traz a sombra, a luz ganha tons escuros e o som é grave e imponente. Lá embaixo, os dançarinos formam a metade azul do taegeuk, o Yin, que significa profundidade e mistério, mas também calma e harmonia interior.
Jin, claro, é a Lua, e surge no telão sob uma luz prata. O som ganha ecos espaciais, harmônicos e doces. Os dançarinos formam um círculo lunar sobre o palco. Ele incorpora a parte branca da bandeira coreana, a base sob a qual o Yin, o Yang e os trigramas repousam. O branco, no caso, é a pureza.
Todo o som que ouvimos durante o VCR não é exatamente música convencional, mas um arranjo de sons antigos e modernos combinados que provocam sensações. São sons de natureza, como chuva, trovão, crepitar do fogo, areia escorrendo, pedras batendo. Nos momentos mais intensos, ouvimos tambores e coros ancestrais.
Por fim, os dançarinos voltam numa procissão de encapuzados em azul e vermelho (e claro, você já sabe a essa altura, de tanto ver as fancams: os 7 estão escondidos embaixo de suas capas também, o que, convenhamos, é a coisa mais fofa).
No centro do palco, BTS e dançarinos formam a bandeira coreana, com seu característico símbolo de yin e yang ao centro.

Então já deu pra perceber que o VCR da Arirang Tour é tudo, menos convencional. É meio que um ato teatral completo dentro da grande peça de teatro que é o show como um todo.







ATO 2 · 흥 (HEUNG)
O segundo bloco muda a temperatura. O diretor descreveu a intenção como mostrar o “espírito coreano de simplesmente se soltar e se divertir”.
Aqui o HAN vira HEUNG. A força da resistência se torna festa.
2.0: O BTS da nova era
Eles voltam ao palco com figurinos mais leves, mas ainda muito estilosos, prontos para “pegar o que é deles” com 2.0 e sua coreografia intensa.
NORMAL: Nem tão “normal” assim
“Querosene, dopamina, fantasia quimicamente induzida”
RM apresentou NORMAL numa live no Weverse com uma observação que muda a forma de ouvir:
“Essa é uma música triste, mas tem uma parte de mim que espera que todo mundo cante ela com alegria nos shows.”
BTS fazendo a gente refletir enquanto se esgoela e pula no estádio? Sim, claro!
Como Nam disse, ao contrário da melodia esperançosa, a letra carrega emoções tristes. É o HAN e o HEUNG dentro da mesma faixa.
Em Busan, ela foi apresentada na versão em coreano, como parte da celebração do FESTA 2026.
Not Today e Mic Drop: clássicos revisitados com a intensidade ARIRANG
“Are you ready?”
Yoongi pergunta se estamos prontos e, nunca satisfeito, solta o grito mais gutural do show, um “Are you ready” difícil de esquecer (e cada vez mais rouco e alto, obrigada, Agust D).
“Not Today” aparece com novo arranjo, ainda mais pesado que o original. Começa aqui o trecho mais energético do show. A seguir, claro, vem “Mic Drop”, que não pode faltar num setlist como este.
Aqui é um abraço ao passado, com direito ao fanchant que nós amamos, com milhares de pessoas berrando os sete nomes (“Kim Namjoon! Kim Seokjin! Min Yoongi! Jung Hoseok! Park Jimin! Kim Taehyung! Jeon Jungkook! BTS!”) com a força de um gol de Copa do Mundo nos acréscimos.
FYA / Burning Up (FIRE): o mashup insano
A transição entre as duas é um dos momentos mais icônicos da turnê. “Fire” aparece como remix da própria “FYA”, e o efeito é o de um pico de energia.
O bloco Not Today → MIC Drop → FYA → Fire é o trecho fisicamente mais exigente do show. Na primeira noite no Stanford Stadium, alguns membros literalmente se deitaram no chão do palco ao final.
Jimin disse:
“Tento não pensar demais durante esse trecho. Só me concentro em transmitir exatamente a energia das músicas através do meu corpo, para que o ARMY consiga sentir.”
Namjoon completou:
“Sem exagerar, mas eu praticamente faço a turnê só por causa desse momento. É o mais perto que chego de me perder completamente. Sou o tipo de pessoa que normalmente está cheia de pensamentos aleatórios e preocupações, então, quando deixo tudo isso e simplesmente me solto e me divirto sem pensar, é quando sinto a maior quantidade de energia e adrenalina. É quando a versão de mim mesmo com a qual normalmente sou tão autoconsciente desaparece por completo, e eu me derreto na plateia. E, mesmo sendo exaustivo, e meu tornozelo ainda doendo, eu não consigo evitar querer me entregar ainda mais. Espero por esse momento mais do que qualquer outra parte do show.”
Kim Namjoon, o cara que lê filosofia e visita museus, faz turnê mundial para chegar aos cinco minutos em que consegue parar de pensar. Não sei você, mas eu achei isso a coisa mais humana já dita sobre estar num palco.
E tem o grito de Jung Kook, já icônico. Durante “Fire”, ele grita “Modu TTwieo!”, que significa “Todo mundo pulando!”, na maior skin rockstar.
Body to Body e o sample de Arirang fazendo história
“I need the whole stadium to jump”
“Body to Body” é a catarse que se segue à crescente de energia em cima do palco. Quando Namjoon exige que o estádio inteiro pule, bom, a gente obedece.
E tem “Arirang”, o sample da música coreana mais tradicional, uma espécie de hino alternativo do país, que graças ao BTS ganha um significado global, de união entre os povos, quando cantado por pessoas de todo o mundo.
E rende essa imagem icônica aqui:
IDOL: a procissão dos reis
Durante o final de “IDOL”, o BTS e os 50 dançarinos desfilam pela pista de atletismo em volta do estádio, carregando bandeiras gigantes e fitas de LED inspiradas nos chapéus sangmo, aqueles com longas fitas, usados em festivais coreanos tradicionais. É como uma procissão.
Do ponto de vista dramatúrgico, este é o instante que marca a passagem do “nós performando para vocês” substituído pelo “nós e vocês, juntos”. E dá-lhe “ôôôôôô”.
A encenação de IDOL foi inspirada em duas coisas: o Ganggangsullae, dança folclórica coreana do festival da colheita, e a cena de entrada dos atletas na cerimônia de abertura das Olimpíadas de Seul, em 1988.


Com a saída deles, vem o ARMY Time, aquela parada para mostrar os banners e se divertir e se emocionar com as mensagens do fandom. E tem o Jin também, o maior fanboy do ARMY, que de uns tempos para cá vem aparecendo com um banner só pra dizer o quanto ama a gente. Fofo demais.
“You can’t stop loving myself”

O trono de RM
Nos primeiros shows da turnê, um trono foi usado durante “IDOL”. A explicação é mais simples do que parece: RM estava com uma lesão no tornozelo no começo da turnê e precisava de um ponto de apoio nessa parte da “procissão”. O item saiu de cena nas apresentações seguintes.
Mas como nada é por acaso no BTS, não colocaram o líder numa poltrona qualquer. O trono trazia elementos coreanos clássicos, o que super combinou.
ATO 3 · 사랑 (SARANG)
O terceiro ato é todo ele uma declaração de amor (sarang) e leva o vínculo entre ARMY e BTS ao seu ápice.
Começa pela apresentação do segundo VCR.
Se você prestar atenção ele traz, em tons de verde, uma árvore se formando, a Yeonrijii. Ela não é uma espécie de árvore específica, mas sim um termo coreano para um fenômeno raro onde duas árvores separadas crescem juntas e se fundem em uma só.
Sim, meus amores, somos nós, o ARMY e o BTS.

E a coisa fica ainda mais profundamente emocional, com os meninos voltando ao palco caminhando com simplicidade, apenas caminhando e cantando e seguindo a canção.
Come Over: o ápice emocional
“Desculpe o atraso. Você ficou bem durante esse tempo?”
Come Over nasceu como faixa escondida em uma edição especial em vinil do álbum ARIRANG, mas felizmente foi também disponibilizada nas plataformas digitais.
No palco de “Come Over”, SUGA pergunta ao ARMY, com voz calma, se “não está tarde?”, e a gente responde com toda força que “Não!” (“Ah-nee!”). O fanchant nasceu espontaneamente e virou tradição cultural da turnê inteira. Simplesmente aconteceu e se repetiu.
E B-army, você tem uma missão. Quando os meninos estiverem no Brasil, esse ah-nee tem que explodir a barreira do som, de tão alto, estamos combinados?
Butter e Dynamite: é festa!
As rainhas pop sabem celebrar, e “Butter” e “Dynamite” vêm descontraídas, com a coreografia levada com leveza, como acontece nas festas mundo afora.
É a definição de HEUNG virando SARANG. Ninguém está querendo provar nada. Estamos só felizes, BTS e ARMY.
As músicas surpresa
“DJ, spin that shit!”
Eu senti, você sentiu, todo mundo sentiu um pouco de ciúmes quando “aquela música preferida” (ou seja, todas) tocam em outro país que não o seu. A coisa ficou ainda maior quando “Louder than bombs” foi apresentada pela primeira vez na história do BTS, em Munique, na Alemanha.
Mas calma… Aceita o ciuminho e toca em frente porque o que vale mesmo é curtir os momentos únicos que as músicas surpresa vêm trazendo para a gente.
As músicas são escolhidas na hora pelo diretor de palco, usando um slot rotativo digital. Os meninos descobrem junto com a gente o que vem pela frente, e as reações são sempre ótimas.
As músicas surpresa eram um sonho antigo dos membros e têm a ver com a vontade de criar memórias únicas em cada show.
Na prática, é um karaokê improvisado de altíssimo risco. Eles tentam lembrar letras. Tentam lembrar coreografias de dez anos atrás. Falham, riem, se ajudam. Uma delícia de ver.
Com mais de 29 lançamentos entre álbuns, EPs e singles, o catálogo do BTS passa de 200 músicas. E isso sem contar remixes e trabalhos solo. Então música para o sorteio não falta.
V, que está provando ter uma memória ótima para as antigas coreografias, contou o que sente nesse momento:
“Quando as músicas antigas tocam, as memórias daquela época se tornam instantaneamente vívidas. Como não consigo esquecer aqueles dias, essas memórias voltam com força, e meu corpo naturalmente começa a se mover. Talvez seja porque me sinto mais feliz e animado sem motivo aparente, mas me pego dançando antes mesmo de perceber.”
Para SUGA:
“Sou grato por ainda existirem pessoas por aí que conseguem ouvir a música daquela época com a gente e voltar direto para aqueles tempos antigos. Cada um se torna fã em um momento diferente, mas foi muito emocionante criar essa experiência em que todo mundo pudesse se unir como um só.”
Please: uma declaração de amor
Depois de uma pausa para conversar com o ARMY, vem “Please” e rola um detalhe que pouca gente nota. A base elevada do palco, sobre o qual eles se sentam para cantar, ganha a projeção da constelação da Ursa Maior, que vem aparecendo cada vez mais na era ARIRANG (lembra da promoção com drones, do desenho nos álbuns, na cena final do MV de “Merry Go Round”…).
Segundo teorias do fandom, os 7 pontos da constelação equivalem exatamente aos locais das 7 tatuagens do número 7 que cada um dos membros fez antes do hiatus, como símbolo de amizade.





Em Busan, e só em Busan, “Please” deu lugar a “One More Night”, a única faixa do álbum que não entra no setlist regular.
Into the Sun: o melhor encerramento do mundo
“Eu vou te seguir até o sol”
Não tem música melhor para terminar um show como este. “Into the Sun” é uma celebração de amor e união entre BTS e ARMY, que termina com pirotecnia e um gostinho de quero mais.
Eles saem do palco com simplicidade, caminhando e se despedindo como velhos amigos. A Weverse Magazine descreveu a saída como o gesto de encerrar o show voltando direto para o abraço do ARMY, carregando junto todo o HAN, o HEUNG e o SARANG, a tristeza, a alegria e o amor, coisas que nós conhecemos bem nesses anos todos de grupo e fandom.
O que acontece entre os atos: os figurinos
As trocas de figurino acontecem naturalmente entre um bloco e outro. Juntae Kim, da marca homônima de Seul, assina os figurinos usados nos shows da turnê ARIRANG, desde Goyang. Ele é o mesmo designer responsável por todos os looks vermelhos e brilhantes de j-hope no primeiro segmento da HOPE ON THE STAGE.
No primeiro bloco não há concessões. Eles aparecem em preto e couro, imponentes e agressivos. Os figurinos são épicos, belíssimos.
O figurino muda conforme a turnê atravessa o mundo. Na abertura na Coreia, por exemplo, os casacos longos e estruturados e silhuetas rígidas foram a tradução do conceito de resistência que faz parte do HAN, com aquela sensação de introspecção e densidade. Pausa dramática para Jimin de cabelos longos ao vento e a skin de um personagem de Game Of Thrones. Inesquecível.
No Japão houve uma redução de volume, com cortes mais ajustados e tecidos com maior mobilidade que favorecem a coreografia. Mais fluidez, mesma identidade.
Nos Estados Unidos, as peças continuaram um tanto mais leves, com maior variação de cor. Os hooligans queriam comemorar com o ARMY. E, de quebra, não morrer de calor…
No México, uma variação linda, com figurinos casuais (aqueles do segundo bloco) produzidos por uma empresa local, a Campillo. Jin ainda subiu ao palco usando uma jaqueta que ganhou de presente de um lutador de luta libre. A Bay Area (Stanford) também teve peças de produtores locais. Não é só gentileza, é uma escolha que dialoga com a tese do álbum: identidade importa, inclusive a dos outros.
Na Europa, eles se soltaram, e muito. Quem sobreviveu a j-hope de sobretudo de couro preto e camisa aberta e ao Jimin sendo muito Jimin que o diga. E, sim, o ARMY continua agradecendo pela existência de regatas brancas, adoravelmente adotadas pela “regata line”: Jimin, Namjoon e Taehyung.
Em Paris, especialmente, os meninos usaram peças de grandes marcas, o que faz todo sentido, afinal, a cidade é a capital fashion do mundo. Jimin babilônico como príncipe da Dior, Nam e Jin de Gucci, Jung Kook todo trabalhado na Balenciaga, Yoongi dando um tempo na Valentino para se cobrir com as flores da Givenchy, Hoseok fiel à Louis Vuitton, assim como Tae, de Celine. Fashion Kings que fala, né?
Os sete fora do palco: a turnê que eles mesmos documentam
Enquanto o show segue um roteiro fechado, os membros abriram uma segunda camada de narrativa nas redes sociais. Cada um documenta a turnê do seu jeito, e isso complementa o storytelling do palco com um storytelling pessoal, feito por eles mesmos.
RM: o embaixador cultural
RM segue “namjoonando” e reforçando o papel que já vinha construindo antes da turnê: ele é sinônimo de arte e aproveita para visitar museus e lugares culturalmente relevantes. E não é que no meio do caminho ainda teve tempo para ser anunciado como primeiro embaixador global do Museu Nacional da Coreia?
Em Londres, o British Museum organizou um roteiro temático pela galeria da Coreia, citando explicitamente a reputação de RM como colecionador de arte coreana contemporânea entre as inspirações.
Ele explicou de onde vem esse hábito, e a resposta é mais bonita do que se poderia esperar:
“Sinto isso sempre que consigo visitar o que você chamaria de lugares verdadeiramente locais de uma cidade. Especialmente algum lugar inesperado… Quando vou a um ponto turístico famoso ou a um museu, minhas expectativas já estão tão altas que fica difícil realmente me emocionar com aquilo. É mais nos restaurantes, cafés e lojinhas que encontro por acaso enquanto caminho pelas ruas que consigo realmente sentir o lugar. É tipo, ‘então é assim que as pessoas daqui vivem, é assim que o ARMY daqui vive. São essas as coisas que eles veem todos os dias.’ Eu guardo com carinho momentos vividos assim.”
Ele já havia comparado o tempo do serviço militar a chronos (tempo cronológico, mensurável) e o tempo ao lado dos membros a kairós (tempo de significado). A resposta acima é a definição dele de kairós na turnê.
Ah, vale lembrar que Nam contou, em entrevista ao podcast Fashion Neurosis, em julho, que o hábito de visitar museus durante a turnê nasceu há muito tempo de uma ideia de outro membro que adora arte, o Taehyung, numa tarde de tédio entre um show e outro. Por essas e outras, obrigada Tae!!!!
SUGA: o blogueirinho na estrada
Aceitem, nós nunca vamos saber o próximo passo de Yoongi. Ele retomou o formato “SUGA’s VLOG”, já usado em sua turnê solo, a D-Tour.
Até agora, já publicou um vlog correndo uma maratona em São Francisco, uma corrida informal com Jung Kook na Coreia e um passeio pelos Alpes Suíços.
Na Espanha, visitou a Basílica da Sagrada Família e, no começo de julho, do nada, postou um stories curtindo (aos berros) o show do Metallica em Londres. Ninguém sabe o que vem por aí…
Perguntado sobre o porquê de documentar tudo isso, ele foi direto como sempre:
“Só tive vontade. Nunca consigo esquecer o quanto o ARMY nos apoiou, e sempre faço questão de não esquecer. Sinceramente, só fiz o vlog porque achei que nossos fãs poderiam gostar, então fico feliz que tenham gostado.”
j-hope, Jung Kook e V: a turma dançante dos bastidores
Icônicos, j-hope e Jung Kook usaram o início da etapa europeia para gravarem juntos sua versão de “I Want You Back”, do NSYNC. O vídeo viralizou e chamou a atenção do próprio Joey Fatone, integrante do NSYNC, que republicou o clipe no Instagram.
Jung Kook, aliás, se tornou mestre em dancinhas aleatórias que viralizam no TikTok. Sua obsessão pela música “Gut Genug” o fez criar um daqueles momentos únicos: ele, j-hope e Taehyung gravando vários takes da dança pela cidade Munique.
Gravado não se sabe quando, V tem lançado vídeos de dança com uma equipe, e é cada um melhor que o outro. Até o fim da turnê teremos um acervo de danças no Instagram e TikTok suficientes para nos animar por muito tempo.
Numa live no Weverse em 3 de maio, Jin chamou V de “mestre da cultura” do grupo. Ele indica museus para o Nam, vai atrás dos melhores passeios e restaurantes, não para nunca.
Ele explicou o método:
“A gente tinha conversado sobre querer aproveitar ao máximo o nosso tempo juntos fora do palco também, e eu queria manter a energia de todo mundo lá em cima, para que ninguém ficasse muito exausto ao longo da turnê, então acabei sendo um dos que trazem ideias, tipo restaurantes e pickleball, e ficava insistindo com os outros para virem junto. (risos) Percebi que criar pequenos momentos de felicidade assim pode tornar a turnê inteira uma experiência melhor para todos nós.”
Sobre os improvisos que ele solta no palco, como comer um cachorro-quente e brindar com o ARMY na Cidade do México:
“Hum, como posso dizer isso? Eu simplesmente gosto de ver o ARMY feliz, então, se alguma ideia surge de repente na minha cabeça, acho que simplesmente sigo com ela. Quero fazer eles rirem (risos).”
Jung Kook também fez o GCF (Golden Closet Film) voltar, ou mais ou menos isso. Ele filmou e editou pessoalmente um vlog do set de filmagem da turnê e publicou no Instagram. Perguntado sobre o motivo:
“Me lembrou de quando eu costumava filmar vídeos ocasionalmente. Como gravar vídeos e tirar fotos me ajuda a lembrar da situação com mais clareza, achei que seria bom criar o hábito de registrar meu dia a dia para mostrar aos ARMYs de vez em quando!”
Jimin: o retorno às redes (mais ou menos)
Historicamente o mais discreto do grupo nas redes, Jimin publicou em 29 de abril seu primeiro conteúdo de dança em quase três anos: uma versão de “SWIM”, coreografada por Ryusei. O vídeo passou de 30 milhões de visualizações em um dia, claro.
Jin: sem planejamento, apenas vivendo a vida
Jin mantém o hábito de publicar fotos de bastidores logo depois dos shows. Não que as fotos sejam suas, ele mesmo disse em entrevista à Elle Korea, em julho, que apenas organiza as imagens que a equipe faz. No resto do tempo, ele compartilha pequenos momentos ao lado dos meninos.
Aliás, vale destacar que, se a turnê ARIRANG é a maior da história do BTS, devemos tudo ao Jin. Foi ele quem propôs estender a turnê para mais lugares que o habitual.
“Antes de entrarmos no serviço militar, a gente disse: ‘Assim que todo mundo for dispensado, vamos ver o ARMY em todos os lugares onde não conseguimos fazer turnê durante a Covid.’ Não era exatamente algo que estávamos discutindo com a gravadora. Foi uma promessa que fizemos juntos antes de nos alistarmos, ir aos lugares onde as pessoas queriam nos ver. Se um cantor que você gosta faz uma turnê e o seu país é o único que ele pula, claro que você se sente mal, e não queríamos que o ARMY se sentisse assim. Quando vejo eles escrevendo para agradecer por termos ido até onde eles estão, isso significa o mundo para mim. Era algo que ia acontecer eventualmente, e agora finalmente estamos fazendo isso.”
É o nosso fanboy mesmo.
Momentos inesquecíveis (até agora)
Tóquio: o momento em que a história pesou
Um aspecto icônico de “Body to Body” na turnê do BTS ganhou um grande momento no Tokyo Dome, em abril.
O público japonês começou a cantar “Arirang” em uníssono, preenchendo o estádio com um coro perfeito. Os membros pausaram brevemente para absorver aquilo. Eles assistiram emocionados a história sendo feita.
Você precisa entender o que estava acontecendo ali. A Coreia foi colônia do Japão entre 1910 e 1945. Foi um período de opressão e violência. Durante esse tempo, a bandeira coreana foi proibida. A canção “Arirang” foi proibida. Cantar era resistência, e resistência era severamente punida.
Então, em 2026, um estádio japonês lotado canta “Arirang” para um grupo coreano. Assistimos arte fazendo reparação histórica.
Stanford ficou “coreana”
Os projetos mobilizam o fandom no mundo todo e aqui no Brasil não é diferente. Stanford foi no simples, e acertou em cheio.
No dia 19 de maio, no terceiro show do Stanford Stadium, o ARMY da Bay Area organizou um fan project: no instante em que a melodia de “Arirang” tocou dentro de “Body to Body”, o estádio inteiro ergueu bandeiras da Coreia do Sul e cantou junto.
A Weverse Magazine descreveu o efeito com precisão: quando pessoas do mundo inteiro se juntam num estádio gigantesco e cantam em coreano o fragmento de “Arirang”, aquilo se torna um símbolo de aceitação e pertencimento.
j-hope foi quem melhor descreveu o que sente ali:
“Isso me pega toda vez. É avassalador. Não consigo descrever de outra forma! Acho que a parte de ‘Arirang’ em ‘Body to Body’ se tornou um dos momentos mais icônicos entre as coisas que queríamos fazer nessa turnê. Acho que esse é o próprio coração disso, deixar de lado diferenças como idioma, raça, geografia, gênero, e tudo mais, para se unir como um só através do amor.”
Jin trouxe uma comparação que eu achei generosa e muito dele. Citou as canções de iodelei, melodia folclórica dos Alpes que virou patrimônio global, e disse estar feliz de poder apresentar canções folclóricas coreanas a fãs do mundo inteiro e cantar junto com eles.
E sobre essa mesma cena:
“Quando estou no palco e vejo a plateia inteira cantando junto a parte de Arirang em ‘Body to Body’, parece uma cena de filme. É algo que eu nunca poderia ter imaginado, e ver isso se tornar real é como assistir ao clímax daquele filme.”
BTS THE CITY: quando a cidade inteira vira palco
“BTS THE CITY ARIRANG” é uma campanha de festival urbano que acontece em paralelo aos shows. O conceito, segundo um representante do projeto, nasceu do desejo de que “a alegria de ver o público feliz no local do show durasse um pouco mais”. A ideia foi reunir as formas de experiência e cultura de fã que antes ficavam restritas ao show e expandir a escala para a cidade toda.
Um dos destaques aconteceu em Las Vegas, com a ativação no Sphere, o maior espaço esférico do mundo, que trouxe tanto o grande sino de “No.29” quanto o Cheongsachorong, a lanterna tradicional coreana de seda azul e vermelha usada em casamentos. Ficou lindo.
Coreografias e “não-coreografias”: BTS está dançando menos?
Este é um assunto que virou pauta, principalmente no começo da turnê, mas já se estabeleceu como uma marca dessa era: as coreografias precisas não estão presentes em todas as músicas, e isso tem a ver tanto com a escolha do formato do palco e sua dimensão como com a narrativa do show do BTS.
O grupo se tornou conhecido não apenas pelas melodias complexas, batidas insanas e letras profundas. As coreografias intensas, repetidas à exaustão em turnês exigentes, sempre foram sua marca pessoal e estabeleceram o padrão ouro da indústria do K-pop.
Aí BTS monta uma nova turnê e está “dançando menos”? Vale a pena falar sobre isso.
Tem uma leitura fácil demais circulando sobre isso, e ela erra o alvo. Ver o BTS “dançando menos” nesta turnê e concluir que é cansaço, que são sete homens na casa dos trinta que já não aguentam o ritmo de antes, é confundir maturidade física com intenção artística.
Não é sobre o corpo ficar mais lento. É sobre o show ficar diferente, de propósito. A ARIRANG está redesenhando o que significa um espetáculo de K-pop em escala de estádio: em vez da coreografia como espinha dorsal, ela vira só mais um recurso entre muitos, ao lado do improviso, da conversa direta com a plateia, e até do erro que vira memória.
O grupo que ajudou a inventar o padrão de precisão milimétrica do gênero é o mesmo que agora escolhe abrir mão dele, e escolher é a palavra certa.
O resultado é um tipo de conexão que sincronia nenhuma consegue produzir: a sensação de que aquelas sete pessoas estão ali com você, não performando para você.
Trocar controle por presença é decisão de quem já provou o que tinha para provar e decidiu que o próximo capítulo pede outra coisa.
A imprensa vem destacando isso. A resenha da NME sobre Goyang descreveu o movimento como um afastamento das coisas que se esperaria de um show de K-pop, em paralelo com o próprio álbum, que também vai além das fronteiras do gênero. A Forbes colocou de uma forma que eu achei precisa: agora que a maioria dos membros está na casa dos 30, eles não têm nada a provar em termos de performance ou de coreografia de alta energia constante.
O Korea JoongAng Daily observou que efeitos criativos e um grande time de dançarinos mais do que compensaram a relativa ausência de instalações no palco e uma performance de dança notavelmente menos densa, transformando cada número em um quadro dramático, com o mar de light sticks ao redor virando parte do espetáculo.
Bang Si-hyuk, presidente da HYBE, foi direto ao ponto em entrevista à Billboard: “BTS 2.0 não deveria ser uma extensão do passado. Tinha que ser uma declaração que abre um novo capítulo.”
Depois do show de comeback (aquele da Netflix), RM já havia avisado ao público: “depois da nossa apresentação em Gwanghwamun, nossa visão mudou. Agora, você pode esperar coisas diferentes do BTS. Eu garanto: é algo diverso e único. Nós sete temos visões diferentes. Mas ARMY… eu sei que vocês entendem o que quero dizer.”
Era aviso, não desculpa. O BTS não precisa pedir licença, nem para nós.
O foco é o grupo, não solos, sorry
Tem uma decisão estrutural na ARIRANG que é fácil de não perceber justamente porque na real é uma ausência: não há músicas solo nem de subunidade no show.
Isso é raro. Praticamente todo grupo de K-pop usa blocos solo como respiro logístico, já que permite desde troca de figurino a dar descanso aos outros membros. O BTS abriu mão disso de propósito, sabendo que ficaria mais cansativo.
Jung Kook confirma:
“Foi a nossa intenção. É bem incomum, hoje em dia, um grupo preencher um show inteiro exclusivamente com músicas de grupo do início ao fim. Queríamos lembrar a todos como é o BTS enquanto grupo, e, já que faz tanto tempo desde nossa última turnê, tentamos focar no tipo de energia que temos quando estamos todos juntos. Obviamente isso torna as coisas mais difíceis, mas queríamos imergir o público naquela sensação de nós sete fazendo o show juntos, do início ao fim.”
E para V:
“Todos nós sentimos que deveríamos focar no grupo, em vez de músicas de subunidade ou solo. Acho que isso é o cerne dessa turnê. Ter nós sete de volta juntos depois de todo esse tempo é algo especial, e também é a nossa forma de dizer que queremos continuar fazendo isso juntos.”
SUGA, com a economia de palavras de sempre:
“Acho que é muito ‘Bangtan’ que nós sete continuemos tão alinhados.”
Sobre a movimentação pelo palco, que muita gente notou parecer carregada de intenção, Jimin explicou o processo:
“Eu queria que o show inteiro, do início ao fim, fosse uma experiência imersiva contínua. Não era tanto ‘esse é o tipo de vibe que devo transmitir enquanto caminho’, e mais ‘o que essa música significa para mim?'”
O tamanho disso tudo
Agora que a gente atravessou a história contada no show, dá para olhar os números e entender o que eles significam.
O básico
A turnê começou em 9 de abril de 2026, no Goyang Stadium, e tem encerramento previsto para 14 de março de 2027. Especula-se que possa ser estendida, alcançando números jamais vistos em turnê de grupo masculino (não apenas asiático).
Entre um ponto e outro, passa por 34 cidades em 23 países, com shows na Ásia, América do Norte, Europa, América do Sul e Oceania.
É a maior turnê individual já realizada por um artista de K-pop. Não em receita apenas, mas em número de datas e em alcance geográfico.
A projeção da Billboard é que a turnê caminhe para meio bilhão de dólares em bilheteria, com mais de três milhões de espectadores. Isso significaria mais da metade de toda a receita de turnês da carreira do BTS concentrada em um único circuito.
O que ainda vem pela frente: o Brasil
Uma turnê tão longa tem a vantagem de nunca acabar de contar a história. Enquanto você lê isto, há capítulos que ainda não aconteceram.
A passagem pelo Brasil não é a primeira e se você quiser saber tudo a respeito te convido para ler esse artigo aqui.
Depois do Brasil, a turnê segue para a Ásia e a Oceania. Há ainda negociações abertas para o Oriente Médio, que podem aumentar o total de apresentações.
Enfim, simplesmente não sabemos quando a turnê do BTS vai acabar.
O maior palco: BTS na Copa do Mundo
Em 19 de julho de 2026, um dia depois de encerrar a etapa europeia em Paris, o BTS subiu a outro tipo de palco.
O grupo foi uma das atrações principais do primeiro show de intervalo da história de uma final de Copa do Mundo, no New York New Jersey Stadium, ao lado de Madonna, Shakira e Justin Bieber. O espetáculo teve curadoria de Chris Martin, do Coldplay, e contou ainda com Burna Boy, a orquestra de Gustavo Dudamel, um coral de crianças e o próprio Coldplay.
Onze minutos para a maior audiência da carreira do BTS.
A apresentação apoiou o FIFA Global Citizen Education Fund, iniciativa que pretende arrecadar US$ 100 milhões para ampliar o acesso à educação de qualidade. Um dólar de cada ingresso vendido para as partidas da Copa foi destinado ao projeto. Nenhum artista ganhou cachê para se apresentar.
Sete caras vindos de Daegu, Busan, Gwangju, Ilsan e Gyeonggi, que começaram numa gravadora pequena em 2013, tocando no intervalo da final da Copa do Mundo.
Se você já acompanha o BTS, você sabe o tamanho disso.
Conclusão (mas só por enquanto)
O BTS ajudou a elevar o K-pop a um padrão de excelência global. Coreografias milimétricas, apresentações de alta precisão, espetáculos visuais impecáveis. Eles foram os arquitetos do modelo que as gerações seguintes ainda tentam replicar.
Na era ARIRANG, eles se afastam desse modelo. Só pra criar outro.
Isso só é possível porque o BTS é hoje a definição de artista maduro: saber quando parar de repetir fórmulas, inclusive as suas próprias. Saber também que evolução nem sempre é acumulação. Às vezes é subtração intencional.
Repare como cada decisão da turnê aponta para a mesma direção:
O palco 360 coloca todo mundo no centro. A redução da coreografia traz a interação humana em evidência. As músicas surpresa colocam o aleatório e o imperfeito dentro de uma estrutura altamente controlada. A ausência de blocos solo põe o coletivo acima do indivíduo. A procissão em IDOL joga o artista dentro da plateia, literalmente. E a saída pelo portão sob as arquibancadas faz o show terminar no meio do público, não atrás do palco.
Tudo isso é uma declaração sofisticada sobre o que pode ser um show ao vivo em 2026.
Tem uma camada acima dessa, e ela dialoga direto com o que a gente escreveu sobre a live de Gwanghwamun.
Quando o BTS pavimentou o caminho para o K-pop se tornar fenômeno global, parte da indústria entendeu a equação de forma simplificada demais. Sucesso internacional virou sinônimo de neutralização cultural: músicas em inglês, estética genérica, fórmulas replicáveis.
A turnê ARIRANG faz o movimento inverso: eles não estão explicando a Coreia para o mundo. Tem diferença.
RM resumiu o que a turnê significa para eles:
“Essa é uma pergunta muito difícil, e é muito difícil dar uma resposta organizada e definitiva. Mas, se tem uma coisa que senti com absoluta certeza, é que os mais de 10 anos que passamos fazendo isso juntos não simplesmente desapareceram no ar. Cantamos tantas músicas e compartilhamos tantas conexões verdadeiras uns com os outros ao longo dos anos, senti que essa turnê finalmente juntou parte disso, depois da longa espera, e deixou isso brilhar. Tipo, ‘nossa, a gente realmente foi atrás disso por 13 anos. Sou muito grato.'”
E Jin completa no estilo seu estilo amigo:
“Esses caras são os melhores, sabe? Já fiz promoções e até turnê sem os outros antes, e havia muita pressão ali. Havia esse medo no fundo da minha mente. Me apresentar sem eles me ensinou algo, o quanto sou grato por conseguirmos fazer isso juntos e o quanto isso significa para mim. Quando estou com eles, acabamos rindo o caminho inteiro por tudo, e no palco também, fico tão feliz que simplesmente não consigo evitar sorrir.”
j-hope é cirúrgico:
“No nosso grupo, você nunca conseguiria substituir nenhum dos integrantes. Cada um de nós tem seu próprio papel a cumprir, e existe um tipo de beleza que só se consegue quando estamos todos juntos.”
Econômico, sem com isso ser menos emotivo, temos SUGA:
“Só sou grato por, mesmo 13 anos depois, ainda conseguirmos fazer turnê e continuar sendo cantores.”
E pra você, qual foi o momento mais marcante da ARIRANG até agora? Você viu o show ao vivo, no cinema ou pelas fancams? E, já que o álbum inteiro faz essa pergunta: qual é a sua canção de amor?
Me conta nos comentários 💜
Perguntas frequentes sobre a turnê ARIRANG
Quando começou e quando termina a turnê ARIRANG do BTS?
Começou em 9 de abril de 2026, no Goyang Stadium, na Coreia do Sul, e tem encerramento previsto para 14 de março de 2027, nas Filipinas.
Quantos shows tem a turnê ARIRANG?
São 88 apresentações anunciadas até o momento, em 34 cidades e 23 países. O número já subiu algumas vezes desde o anúncio inicial de janeiro, que falava em 79 datas, e ainda há negociações abertas para Japão e Oriente Médio.
Qual é o setlist da turnê ARIRANG?
São 23 músicas por noite: 16 no bloco principal e 7 no encore, sendo duas rotativas (as músicas surpresa). O repertório inclui 14 das 15 faixas do álbum ARIRANG.
Qual é a divisão dos três atos do show?
O Ato 1 é 한 (han), e representa o BTS. O Ato 2 é 흥 (heung), e representa a Coreia. O Ato 3 é 사랑 (sarang, amor), e representa Arirang.
O que são as músicas surpresa do BTS?
São duas faixas do catálogo antigo escolhidas na hora, a cada show, depois de “Dynamite”. Os membros gritam “DJ, spin that shit!” e descobrem junto com o público o que vai tocar.
Quando o BTS vem ao Brasil em 2026?
Nos dias 28, 30 e 31 de outubro de 2026, no Estádio do MorumBIS, em São Paulo.
Por que o palco da turnê é em 360 graus?
Para eliminar a distinção entre setores bons e ruins, colocando o público ao redor do palco central. O design também amplia a capacidade dos estádios. A estrutura é inspirada no pavilhão Gyeonghoeru e no símbolo taegeuk da bandeira coreana.
Quem assinou os figurinos da turnê ARIRANG?
Juntae Kim assina os figurinos da turnê. Jay Songzio, da SONGZIO, assinou a coleção “Lyrical Armor” usada no show de lançamento do álbum em Gwanghwamun, evento anterior ao início da turnê.
O que significa Arirang?
É a canção folclórica mais conhecida da Coreia, considerada seu hino não oficial. Os temas centrais são amor, separação e resiliência. Foi cantada como forma de resistência cultural durante a ocupação japonesa, entre 1910 e 1945.
O BTS tocou na final da Copa do Mundo de 2026?
Sim. O grupo foi uma das atrações principais do primeiro show de intervalo da história de uma final de Copa, em 19 de julho de 2026, ao lado de Madonna, Shakira e Justin Bieber, com curadoria de Chris Martin.
Slug: turne-arirang-bts
Meta description: Turnê ARIRANG do BTS: bastidores, simbolismo do palco 360°, figurinos e o que a história dos três atos (HAN, HEUNG, SARANG) revela.





