Audioguia da exposição do Namjoon: o Namjoon tira uma selfie no espelho, com o cabelo castanho penteado para trás, um casaco escuro e um cachecol. Ele segura o celular na frente do rosto, com uma capinha branca estampada com desenhos da Hello Kitty. O espelho tem lâmpadas redondas, de estilo camarim. Ao fundo, há pôsteres coloridos na parede e, sobre o balcão, uma placa de acrílico com as palavras "Welcome" e "RM x" parcialmente visíveis. A selfie foi compartilhada pelo próprio Namjoon nos stories do Instagram. À direita, sobre fundo marrom, a capa do Bangtan Now traz o logo do blog, a palavra "Artigos" e os textos "Audioguia da exposição do Namjoon", em vermelho, e "A tradução completa de tudo o que ele diz no SFMOMA", em cinza-claro.

Audioguia da exposição do Namjoon: a tradução completa de tudo o que ele diz no SFMOMA

O audioguia da exposição do Namjoon saiu, e eu nem sei por onde começar. O SFMOMA liberou no próprio site o áudio que acompanha a exposição RM x SFMOMA: Between You and Me, e isso muda tudo pra quem, como eu, está do outro lado do continente sem passagem pra São Francisco tão cedo. Não dá pra andar pelas salas, infelizmente, mas dá pra ouvir o Namjoon apresentando cada uma delas e comentando as obras, com aquele inglês cheio de “tipo” e “hum” de quem está pensando alto.

E pensando alto é exatamente o que ele está fazendo, porque nada ali foi lido de um roteiro. Abaixo você encontra a tradução completa do audioguia do Namjoon, com as obras que ele cita em cada sala e alguns comentários meus pelo caminho (não consegui ficar calada, me desculpe).

As oito seções, os pares de obras e o discurso de abertura da exposição do Namjoon eu contei em detalhes em outro texto. Aqui o assunto é só a voz dele. E nossa gratidão à Camis, que traduziu tudo para o nosso canal do Telegram.

Resposta rápida: onde ouvir o audioguia da exposição do Namjoon

  • Onde ouvir: no site do SFMOMA, na página Explore a exposição com o RM, de qualquer lugar do mundo;
  • Idiomas: inglês e coreano. Não há versão em português.
  • Quantas partes: 11. São um prefácio, uma parte para cada uma das oito seções da exposição (Umber tem duas) e os créditos.
  • Quem narra: o próprio Namjoon. Os créditos são narrados pela cocuradora América Castillo.
  • Na exposição: o visitante ouve pelo próprio celular, então leve fone de ouvido.

Como foi feito o audioguia da exposição RM x SFMOMA

Pelo que o museu apresenta, a ideia é que o Namjoon fale de cada sala do jeito dele, das coisas pequenas do dia a dia até as perguntas grandes da vida. E tem uma nota de produção que eu achei linda:

“Para preservar a autenticidade da voz do RM e de sua vivência tanto em sua primeira quanto em sua segunda língua, este audioguia foi produzido de forma bilíngue a partir de duas entrevistas separadas e sem roteiro, uma em coreano e outra em inglês, em vez de ser traduzido. O conteúdo e a experiência serão um pouco diferentes entre as versões em inglês e em coreano. Obrigado por ouvir.”

Ou seja: cada versão nasceu de uma conversa própria, sem roteiro, em um idioma diferente. Por isso, se você entende coreano e inglês, vale muito a pena ouvir as duas versões. A tradução abaixo é da versão em inglês.

Um detalhe interessante: no áudio, ele se apresenta com 31 anos, enquanto no prefácio do catálogo já fala em 32. Ao que tudo indica, a gravação foi feita antes do aniversário dele, em 12 de setembro. Ou levando em conta a idade coreana.

Tradução completa do audioguia da exposição do Namjoon

O audioguia do Namjoon segue o percurso da exposição, da primeira sala azul até o umber do Yun. Em cada parte, você encontra a fala dele, as obras citadas e um comentário meu.

Audioguia do Namjoon, parte 1: Prefácio, “Bem-vindos ao meu mundo”

“Oi, pessoal. Meu nome é RM. Sou o líder do grupo chamado BTS, meu nome coreano é Kim Namjoon, e sou um cara de 31 anos da Coreia do Sul. Esta exposição se chama RM SFMOMA, mas, sabe, ela fala das minhas coisas pessoais, então prefiro ser chamado de Namjoon. Ou vocês podem me chamar de Joon, tipo, se for muito longo.

Parece que eu já estou no espaço e consigo ver as pessoas, tipo, esperando na fila. O que eu sempre espero ansiosamente é… não sei como se chama em inglês, mas é, é ‘seolleim’ em coreano.

Como se diz em inglês? Borboletas no estômago? Isso soa bem romântico, mas é mais tipo, hum, sabe, tipo uma expectativa pelo que vai acontecer. Qual é o jantar de hoje que os curadores prepararam para mim, os chefs?

A arte me faz rir e chorar. E eu sentia muita inveja, porque a música pode permanecer como eletricidade, tipo frequências. Ela pode soar diferente dependendo dos equipamentos e das mídias. Mas uma pintura é só aquela única pintura. Você simplesmente a recebe, fica de frente para ela. Então eu realmente invejava isso. Mas acho que muitos artistas às vezes sentem inveja da música, porque a música pode estar em qualquer lugar, tipo no ar, quando você dirige, quando toma banho. Mas, no caso da arte, tipo, você precisa ir a um lugar, tipo um museu. Então acho que essa é a diferença de meio. Mas todas são a mesma linguagem.

Eu faço álbuns porque todos os meus sentimentos não podem ser traduzidos só com palavras. É por isso que eu faço música. Esta exposição está, está no mesmo contexto. Só espero que vocês se divirtam. Se ficarem entediados, é só desistir ou parar de ouvir e só dar uma olhada. Se surgir um interesse, uma boa lembrança, uma curiosidade ou o que for, se vocês saírem com algo marcante depois de ver esta exposição, acho que é isso. Esse é o único dever quando se trata de uma exposição. É, só se divirtam e bem-vindos ao meu mundo. Agradeço por passarem um tempo com a minha confusão.”

Pode me chamar de Joon. Eu não vou superar isso tão cedo. E seolleim (설렘), aquela ansiedade boa de quem espera algo acontecer, é exatamente o que eu sinto toda vez que o BTS anuncia qualquer coisa.

Audioguia do Namjoon, parte 2: Blue Water

“Azul e água. O azul é a minha cor favorita desde que eu era bem pequeno. E eu não sei por quê. Gosto muito dos vários significados que a palavra ‘blue’ tem em inglês. Acho que o azul carrega muitas histórias dentro dele. O céu também é azul, a água também é azul, os nossos sentimentos às vezes são azuis. Então, acho que o azul é o começo para mim. É por isso que comecei a exposição pelo azul. Todos nós viemos da água, então… o azul é água, e a água é azul para mim. Só espero que as pessoas consigam se sentir mais íntimas e, e pessoais ao mesmo tempo.

Ela começa com uma única pintura de Kim Whanki. Ele pintou muito azul. Então existe um, hum, termo chamado ‘azul Whanki’. Isso significa muito tanto para mim quanto, hum, para o SFMOMA. Acho que esta pintura consegue contar esta exposição inteira. O Sr. Kim foi um dos primeiros pintores que conheci quando comecei a, ãh, estudar os artistas coreanos. Ele morreu em Nova York, em 1974. A esposa dele tentou doar as pinturas dele para muitas instituições nos Estados Unidos, mas ele não era tão famoso naquela época, porque era da Coreia do Sul. Ela doou esta pintura ao SFMOMA em 1979. Eu quero muito apresentá-lo bem. Também trouxe uma pintura pequena do Kim, que ficava na minha sala de estar. Assim, pode existir esse tipo de comunhão e de histórias juntas entre mim e o SFMOMA, os coreanos e os americanos, então eu queria muito começar a exposição com esta pintura.O vidro de Roni Horn. Está ali. Tipo, no chão. Está no fundo, com um véu. Aqui parece vidro. Parece gelo. Muita gente quer tocar. Parece um, hum… ‘comprimido?’ Ãh, é tipo um clima encolhido. E a natureza de, talvez, a Islândia ou, ou, ou algum outro lugar. Parece gelo. Parece água. Parece clima. Parece chuva. Então isso parece muito estranho, e todo mundo quer tocar. Espero que vocês não, não toquem, desculpa. Mas eu achei que tinha água de verdade dentro, só que é vidro. Acho que essa é a graça de-de uma escultura. Você imagina um material de um jeito, mas, quando vê, é totalmente diferente. A ilusão, a imaginação, ela sempre te trai.”

Obras citadas:

  • Kim Whanki, 26-I-70 #141
  • Roni Horn, Untitled (‘But the boomerang that returns is not the same one I threw.’) (Sem título: “Mas o bumerangue que volta não é o mesmo que eu lancei.”)

O quadro de Kim Whanki que a viúva dele não conseguia doar porque, naquela época, o artista ainda não era famoso nos Estados Unidos, hoje abre uma das exposições mais comentadas do ano. Justiça poética que chama?

Audioguia do Namjoon, parte 3: Friendscape

“É, Friendscape. Acho que o nome é bem estranho. Os animais são nossos amigos. E as paisagens também são nossas amigas. Então eu meio que fiz um trocadilho. De landscape para friendscape. Então tem muitos animais, árvores, plantas, montanhas… Eu queria trazer, tipo, um cenário da natureza para esta galeria. Eu me sinto muito pessoal quando vejo estas obras. Elas são minhas amigas.

E vocês podem ver a pintura de To Sangbong. É, ãh, é uma paisagem do nosso antigo palácio coreano, o jardim dos fundos do palácio coreano. E parece outono.

E, para o inverno, instalei esta, a paisagem de inverno de Kim Chong Hak. Dá para ver dois pássaros, dois patos flutuando na fonte. Não, como é que é? Ãh, na água. É, então eu, eu troco a pintura do meu quarto de estação em estação. É sempre muito bom ver como artistas diferentes enxergam a mesma coisa de formas diferentes, de tempos em tempos ou de, de lugar para lugar.

Acabei de reformar a minha casa, então ela está, está sempre mudando. Mas tinha, no meu, como se diz? Quarto de dormir? Ãh, suíte. Quarto. Meu Deus. Por que eu esqueci a palavra? Mas eu troco às vezes de estação em estação, porque a Coreia tem quatro estações diferentes: primavera, verão, outono e inverno. E os coreanos são muito sensíveis a isso. Para o verão, coloquei esta montanha de Park Kosuk. É uma paisagem de uma montanha coreana e, para mim, é como o verão. Tem muitas montanhas na Coreia, e ouvi dizer que, tipo, cada montanha tinha seus tigres cem anos atrás. A gente se sente muito próximo dos tigres. Eles são reis e rainhas.

Eu queria que esta exposição inteira fosse bem mais pessoal. E tem muitas peças convencionais, como pinturas e esculturas, mas espero que elas possam ser expostas de um jeito meio, tipo, não convencional. Ah, se uma instituição faz uma exposição, ela nunca faria uma coisa dessas. Mas eu sou o responsável por esta exposição, então eu posso. O que eu quiser, porque não sou um curador oficial, oficial. Não sou formado nisso.

Ãh, os patos! Eles são tipo do século dezenove, dezoito. São patos antigos feitos de madeira, da Dinastia Joseon. Eram feitos principalmente para casais recém-casados, tipo desejando a eles um futuro incrível na vida. Eles são todos diferentes, como os humanos, e sempre que eu v-vejo eles, me sinto muito, hum, em casa.”

Obras citadas:

  • Park Kosuk, Outer Seorak (Seorak Exterior)
  • To Sangbong, Landscape of Gwangneung (Paisagem de Gwangneung)
  • Kim Chong Hak, Winter Landscape (Paisagem de Inverno)
  • Autor desconhecido, Wooden Geese (Gansos de Madeira)

Um homem que troca o quadro do quarto conforme a estação do ano e esquece a palavra “bedroom” no meio da explicação. Fofíssimo.

Audioguia do Namjoon, parte 4: Home

“A arte pode ser um lar, mas, ao mesmo tempo, a arte pode ser como um filme de terror. Algumas obras me fazem sentir realmente em casa, mas outras me ajudam a sair da gaiola e pensar em coisas em que nunca pensei na minha vida inteira. Pode ser os dois lados ao mesmo tempo. Mas estas são obras que me fazem sentir realmente com os pés no chão, em casa.

Vocês podem ver os móveis antigos de madeira. E eles também são tipo do século dezoito, dezenove. Talvez alguém tenha usado na própria casa cem anos atrás. Eu amo as marcas que ficaram, sabe, tipo furos e arranhões, nessas madeiras. Eu uso na minha casa e sinto, não sei por quê, mas madeira e pedra simplesmente me dão a sensação de lar. Talvez seja por virem da mãe natureza. Quando vejo esses móveis antigos de madeira e essas pedras, sinto como, como se eu estivesse seguro. Meu mentor sempre me dizia: ‘Um dia você vai voltar para a terra.’ O verdadeiro lar.

Quando vocês virem a maior pintura de Son Sangki, é a pintura de uma sala de estar que parece muito rica. E também tem uma pintura dentro da pintura. Son Sangki teve uma vida difícil. Ele conviveu com uma deficiência durante a maior parte da vida. Ele morava numa área pouco desenvolvida de Seul e pintou muitos muros brancos e altos de Seul, prestes a serem demolidos para reformas. Ele deu a esta pintura o nome de Ironia, e a pintura dele está instalada numa sala de estar muito, muito rica. Então, quando vejo esta pintura, sempre, tipo, sinto: ‘Será que eu estou sendo uma pessoa rica e chata?’ Ou algo assim. É, então ela me deixa muito, hum, desconfortável, e eu gosto disso.

Eu vim de, tipo, uma casa normal, financeiramente. Mas, por sorte, eu, eu ganhei muito dinheiro muito jovem. Às vezes isso me deixa muito, hum, não sei. Tipo, será que eu mereço todas essas coisas de que eu nem preciso? A existência dele e as pinturas dele são como alertas para mim. Tipo, você está vivendo de verdade? Você não acha que está se acostumando demais com esse tipo de vida e só desperdiçando seus recursos? Então você precisa usar o seu dinheiro de um jeito bom. Não sei qual é o jeito bom, mas ainda estou descobrindo.”

Obras citadas:

  • Autor desconhecido, Three-tier Open Shelf Unit (Estante Aberta de Três Níveis)
  • Autor desconhecido, Scholar’s Desk (Escrivaninha de Erudito)
  • Son Sangki, Artificial City: Irony (Cidade Artificial: Ironia)

Lembra do “rico chato e entediante” do discurso de abertura da exposição? Ele já estava aqui, nessa sala, olhando pra um quadro que o incomoda de propósito. E ele escolheu deixar esse incômodo exposto na sala que representa a casa dele.

Audioguia do Namjoon, parte 5: Photobuddha

“Photobuddha. Quando você entra na sala, o Buda está, tipo, sempre nos observando, tipo, com aquela cara de Buda. Talvez ele goste de observar o mundo e as pessoas, talvez, sabe, através de todos esses pensamentos. Talvez ele goste de assistir TV, quem sabe. Nós somos a TV dele.

É uma instalação de Nam June Paik, que questiona a tecnologia e a religião. É engraçado ver o Buda olhando para a TV, do mesmo jeito que a gente olha para o celular todo dia. E a televisão mostra a imagem atual do Buda e, quando você chega perto, dá para tirar uma foto com o Buda. Tipo uma cabine de fotos. A gente tem muitas cabines de fotos na Coreia. Tipo, é simplesmente parte da nossa, tipo, rotina quando saímos com um amigo. É uma obra muito íntima, então, quando você olha para a TV, não resiste e acaba tirando uma foto. É divertido.

Eu, eu vou ao templo pelo menos umas três vezes por ano, e isso me deixa com os pés no chão. Me ajuda. Eu, eu não tenho uma religião específica, ãh, mas o Buda é um ser humano. É um ser humano que alcançou a iluminação ao longo da vida, e ele também teve um filho e uma, e uma esposa. Ele viveu o casamento. Eu simplesmente amei a história de como ele viveu como ser humano, saindo de casa.E este pequeno desenho, na verdade, é um desenho do TV Buddha. Foi muito engraçado o SFMOMA ter esse desenho e eu ter a obra, a obra de verdade do TV Buddha. Então simplesmente juntamos os dois. Uma colaboração linda. Acho que é uma boa obra de arte, porque dá para pensar em muita coisa. Dá para pensar em religião. Dá para pensar em tecnologia. Dá para pensar em comunicação ou, tipo, em histórias, quando estamos, tipo, olhando para os nossos rostos ao lado do Buda. Só espero que as pessoas consigam criar uma, tipo, uma lembrança. É só tirar uma selfie ao lado do Buda e vamos pensar no que isso significa.”

Obras citadas:

  • Nam June Paik, Enlightenment Compressed (Iluminação Comprimida)
  • Nam June Paik, Untitled (TV Buddha) (Sem Título: Buda da TV)

“Nós somos a TV dele.” Eu amei isso.

Audioguia do Namjoon, parte 6: People

“Hum, pessoas. Não é engraçado que pessoas pintem pessoas? Quando vou, principalmente, tipo, a uma retrospectiva de um único artista, o que sempre me prende por mais tempo é o autorretrato do artista. Sabe, ele pode dizer muita coisa. Tipo, tipo o Rembrandt, quando era bem jovem; quando estava na meia-idade; quando pintou de novo já bem velho. A gente consegue ter um vislumbre da vida dele.

Eu nunca pintei nem uma vez, então sempre me pergunto, tipo, o que os artistas pensam quando pintam pessoas? Às vezes a gente esquece, principalmente quando fica impressionado com a aura de um nome como Picasso ou Matisse, que eles são só pessoas e seres humanos, e que existem pessoas por trás da moldura. Sempre tento lembrar a mim mesmo que a arte é sempre feita por pessoas. E eu queria instalar muitas coisas diferentes, até fotografias, de diferentes tipos de seres humanos. Tipo casais, mulheres, irmãs, irmãos. É, ãh, tem muitos seres humanos, e dá para ver como eles colocaram o amor deles nesta moldura pequena.Esta fotografia de Han Youngsoo: não tem rostos. É um casal comum, em Seul, nos anos 1950. Foi logo depois da Guerra da Coreia. Ele capturou o momento em que havia, de… a vida cotidiana seguindo para as pessoas comuns. Aprendi na escola que, tipo, era tudo muito pobre e triste e não havia nada, nos nossos, tipo, anos 50 e 60. Mas tinha pessoas simplesmente vivendo a vida delas. Elas parecem tão estilosas. Isso me ensina que existem muitos lados que eu não consigo ver ou conhecer. Me faz pensar que talvez meus pais fossem assim quando namoravam, jovens. Esta foto ficava pendurada na parede da casa dos meus pais. Eu simplesmente peguei deles. ‘Preciso disso para a exposição, então vou levar.’ Eles me disseram tipo: ‘Tá bom, traz outra foto.’ Tipo, às vezes, quando eu tiro alguma coisa da casa deles: ‘Ué, cadê, cadê aquela peça que a gente amava no nosso quarto ou na nossa sala?’ E eu: ‘Ah, é que eu… eu gostei mais, então levei para a minha casa.’ ‘Tipo, dá para devolver?'”

Obra citada:

  • Han Youngsoo, Deoksugung Palace, Jeong-Dong, Seoul (Palácio Deoksugung, Jeong-Dong, Seul)

Filho que “pega emprestado” uma coisa da casa dos pais e nunca devolve: universal. Todo mundo tem um. Às vezes é um tupperware, às vezes é uma fotografia de Han Youngsoo.

Audioguia do Namjoon, parte 7: Passion

“Estes são os artistas que realmente viveram a vida deles. Estamos vivendo numa época que nos incomoda muito. Tem barulho demais, tipo YouTube, Instagram ou, sei lá, celulares, mídias. Tem coisa demais em que a gente pode simplesmente colocar a nossa atenção e jogar fora. Quando sinto que estou preguiçoso demais ou tipo: ‘Ah, cara, o que mais eu posso fazer? Talvez isso seja, seja o melhor.’ Mas todos esses artistas que eu admiro muito sempre me dizem tipo: ‘Você pode ir mais longe e ainda mais. Você nem… Você simplesmente não tem nem o direito de estar sofrendo. Imagine a nossa época.’

Principalmente esta pintura de… é uma pintura abstrata de Park Rehyun. Parece um navio ou tipo um iate ou… O marido dela também era pintor. E ele foi um dos grandes, grandes mestres da pintura coreana. Pessoalmente, eu gosto ainda mais da pintura dela. O marido dela era surdo, e eles tiveram, tipo, quatro filhos. Então ela se chamava de ‘tradutora de três lados’. Ela precisava ser a boca e o ouvido do marido. E também criou os quatro filhos deles. E também pintava. Eu, eu não conseguiria fazer isso. Não tinha máquina de lavar nem, sabe. Eu simplesmente não consigo imaginar, tipo, como ela conseguiu. E ela ainda construiu um, tipo, um mundo maravilhoso da própria arte. Quando vejo as pinturas dela, sinto como se ela estivesse sempre me ensinando, tipo, até onde um ser humano pode ir.Não sei se, se isso me ajudou a ser um músico melhor. Mas me ajudou a ser uma pessoa melhor. Quando olho para trás, para a vida deles e para a paixão, a vontade, a dedicação deles a uma única coisa, eles me dizem que não existe almoço grá… grátis. Se você quer chegar a algum ponto ou a algum mundo diferente, precisa pagar com a sua vida. A vida inteira.”

Obra citada:

  • Park Rehyun, Work (Obra)

“Não tinha máquina de lavar.” Um homem de 31 anos reconhecendo, num audioguia de museu, o trabalho doméstico que existia por trás da obra de uma artista mulher. Anote aí, porque isso é raro. Namjoonie, te amo.

Audioguia do Namjoon, parte 8: I Don’t Know But I Like It

“É, esta é a minha, uma das minhas seções favoritas, só pelo título. É muito sincero. Às vezes, quando você gosta de uma obra ou quando apresenta seu artista favorito para alguém, você sente, todo mundo sente a pressão: você tem que explicar ou descrever, tem que contar todas aquelas grandes, grandes histórias da arte e críticas e tal. Mas não, às vezes, nas belas-artes, você só olha com os olhos. É visual. Às vezes você simplesmente se deixa levar pela aparência. Não sei o que tem por trás, mas acho que eu gosto.

Tipo, o que é isso? O que é essa coisa? E estas são as peças que simplesmente me chamaram. Tipo: ‘Vem cá, me leva para a sua casa.’ Mais do que isso, eu simplesmente amo elas. Isso é muito sincero e transparente. Tipo, você simplesmente gosta. Sabe, por que eu gosto dele? Por que eu gosto dela? Às vezes, no começo, você sabe os motivos. Tipo, ah, ela é muito legal. Ela é muito descolada. Ela é muito alta. Ela é muito pequena. Mas às vezes, em algum momento, você simplesmente esquece todos esses motivos e não consegue explicar.Então, estas cerâmicas de Yoshitomo Nara. Eu o conheci em 2023, logo antes do meu serviço militar. Ele veio à Coreia para a exposição da Pace Gallery. Tinha estas cerâmicas, e elas parecem… é muito difícil explicar isso em inglês, mas, simplificando, parecem uma cerâmica coreana antiga. São todas porcelanas brancas, mas pintadas com materiais diferentes. A maioria das pessoas ama as azuis, os ultramarinos sobre a porcelana branca. Mas eu prefiro estas mais baratas, pretas, tipo pintadas com ferro. E, para mim, parecem a porcelana coreana antiga, só que pintada pelo Nara. Quando olho para a peça, ela me lembra o dia em que conheci o Nara-san em Seul. Era verão. Não estava tão quente. Eu o conheci, e ele era muito legal e gentil. Mas normalmente, sabe, quando você vai à abertura de uma galeria, sempre tem champanhe, vinhos bons e tal. Mas o Nara odeia isso, então ele levou makgeolli. É tipo uma bebida de arroz. E ele bebe num copo de papel. Eu simplesmente amo isso. Todas essas histórias juntas, e simplesmente parece: me leva para a sua casa.”

Obra citada:

  • Yoshitomo Nara, We are Outlaws (Nós Somos Foras da Lei)

“Me leva para a sua casa.” Todo colecionador (de arte, de álbum, de photocard) conhece essa voz. E ninguém resiste a ela. Vou usar essa desculpa quando ver a fatura do meu cartão de crédito.

Audioguia do Namjoon, parte 9: Umber I

“Yun, por que ele é tão especial? Todo mundo quer que eu explique, mas eu não consigo. Porque eu o amo demais. Eu até fiz a capa de um álbum meu com uma pintura dele, e acho que, pelas pinturas dele, pela vida dele, pela personalidade dele, pelo jeito como viveu como artista, como pai, como ser humano, ele é como um professor.

Um amigo meu amava muito, ãh, admirava a arte dele e sempre, sempre me dizia: ‘Você precisa ver a exposição dele.’ Ele teve uma grande retrospectiva no MMCA coreano, que é tipo o Museu Nacional de Arte Moderna e Contemporânea. E eu perdi, porque naquela época eu não conhecia muito bem a existência dele. Mas ouvi dizer que eles estavam fazendo uma turnê na Bienal de Veneza, tipo uma exposição paralela. Então eu literalmente voei até Veneza só para ver a exposição, não a Bienal. Eles fizeram essa exposição num antigo ateliê de um artista italiano. Se chamava Palazzo Fortuny. Era verão de 2019. E eu fiquei literalmente em choque, porque o prédio inteiro parecia ter sido construído para mostrar as pinturas dele. Assim que entrei, uma menina estava saindo pela saída, chorando. Aí eu pensei: ‘Por que ela está chorando?’ E, quando entrei, simplesmente entendi. Eu não chorei, mas foi uma experiência sublime. Foi aí que comecei a admirar de verdade os artistas coreanos.

E, quando olho para os modernistas coreanos, logo depois do período da Guerra da Coreia, simplesmente não consigo imaginar aqueles tempos, e sinto muita vergonha de mim mesmo. Eu não me preocupo, tipo, com o amanhã só para sobreviver. Nós éramos um dos países mais pobres, e passamos, tipo, pela dominação do Japão e pela colonização. E, depois disso, tivemos que atravessar a Guerra da Coreia, e fomos divididos em dois, como muita gente sabe. O Yun passou por tudo isso. Ele não expressou a raiva dele para fora, sabe, para a sociedade ou para a família. Ele simplesmente fez isso na tela, de um jeito lindo. Dá para ver a fúria, mas realmente fúria e graça ao mesmo tempo nas pinturas dele.

Principalmente nas primeiras pinturas, ele fazia tipo muitas vezes: pincelava de novo e de novo, porque estava muito bravo e triste. Acho que ele não sabia como, tipo, resolver isso. Na verdade, quando você conhece, dá para ver muitas histórias em cada pincelada. Às vezes parece que está chorando. ‘Beonjim’, a tinta se espalhando. Parece uma pintura ocidental, mas também parece caligrafia. É abstrata, mas dá para ver tipo uma montanha ou tipo uma lápide. Para mim, parece muito universal e pessoal ao mesmo tempo.”

Ele pegou um avião pra Veneza só pra ver uma exposição do Yun. Não a Bienal inteira, só o Yun. Isso, meu amor, é devoção. E a capa de álbum que ele menciona é a de Indigo, o disco que abre com uma música chamada justamente Yun:

Audioguia do Namjoon, parte 10: Umber II

“Começamos com uma pintura de Kim Whanki, e ele era o sogro e também o professor de arte do Yun. E os amigos dele, tipo Choi Jong-tae ou, ou Donald Judd, e o mais importante, tipo Rothko, acho que o Yun com certeza viu a pintura dele. Quando o sogro dele, Kim Whanki, morreu, ele teve que voar para Nova York e resolver todas as coisas. E acho que ele, naquela época, deve ter visto pinturas dos expressionistas abstratos, como Rothko ou Guston, e claro, Pollock. Mas a pintura dele era diferente, porque ele viveu uma vida diferente.

Para a última sala, eu só queria colocá-los juntos e ver como eles conversam entre si. Coreano e americano. RM e SFMOMA. É por isso que o subtítulo desta exposição se chama ‘Between You and Me’ (Entre você e eu). Eu estava pensando em opções como ‘Meet Me Halfway’ (Me encontre no meio do caminho) ou tipo ‘sai’, que significa ‘entre’ em coreano. Então foi por isso que comecei com Kim Whanki e terminei a exposição com a pintura do Yun. Kim Whanki começa com o azul, como o céu e a água, mas o genro dele, Yun, completou com a terra. Então é tipo céu e terra, azul e umber.

Quando eu, quando eu tenho que falar do Yun, sempre perco as palavras. Eu sou um homem das palavras. Eu sou, eu sou refém das palavras, porque comecei, tipo, escrevendo coisas. Quando eu era jovem, queria muito ser escritor, mas fui para a música porque achava que o rap significava, tipo, ritmo e poesia, o que não era verdade. Sinto que existe algo que não pode ser dito com palavras. E é por isso que acho muito difícil simplesmente explicar quando me fazem perguntas sobre o mundo dele.

Eu amo as línguas, e elas sempre serão o meu amor. Mas é tão diferente. Elas são tão diferentes. Ãh, elas têm suas próprias texturas e frequências. Esta exposição é uma tentativa de juntá-las. A gente acha que está se entendendo, ãh, cada vez mais, mas será que está? Ãh, a gente precisa pensar sobre isso. Talvez a gente só esteja achando que está ficando cada vez mais perto. Existem muitos caminhos e muitas pontes para entender outro mundo, e espero que essas duas línguas ou esses artistas diferentes possam ajudar as pessoas a pensar em entender lados diferentes e o mundo que vocês, ãh, nunca conheceram.

É preciso se elevar para perder as palavras. E ser livre. Quanto mais eu explico, mais me confundo. Esta exposição é, é uma confusão total minha. Eu tenho 31 anos. Ainda sou jovem. Não sei nada sobre a vida. Só estou descobrindo. Vocês podem simplesmente sentir a confusão e as tentativas da minha cabeça. É isso. Sempre me pergunto: será que estou sendo um músico profissional tão chato? Só indo e flutuando conforme a correnteza, porque, tá, tem agenda, estou fazendo. Tá, é, acho que é hora de você lançar seu álbum. Faz tempo, então tá, aí eu faço um álbum. Eu não quero fazer isso. Tipo, acho que eu só queria receber um pouco de ajuda dessas pessoas incríveis. E acho que isso me ajuda muito.”

No artigo sobre a exposição do Namjoon, eu comentei que o percurso começa no céu, com Kim Whanki, e termina na terra, com Yun. Ele confirmou aqui, com as próprias palavras: céu e terra, azul e umber. E ainda deixou escapar o motivo de tudo: ele não quer fazer nenhum álbum no piloto automático, só porque “está na hora”. Quer ser ajudado por essas pessoas incríveis. Essa frase vai ficar comigo por um bom tempo.

Audioguia do Namjoon, parte 11: Créditos

O audioguia fecha com os créditos (END CREDITS), narrada pela cocuradora América Castillo:

“Meu nome é América Castillo e sou uma das cocuradoras de RM SFMOMA: Between You and Me. Esperamos que vocês estejam aproveitando o tempo aqui no SFMOMA. Este audioguia foi narrado por RM e produzido por Haeryun Kang, com o apoio de Fengxue Zhang. O projeto foi possível graças à parceria com a Big Hit Music, a HYBE e a HYBE INSIGHT, e ao grande apoio da Samsung Electronics. Obrigada por ouvir.”

A trilha sonora para ouvir junto

Se quiser completar a experiência, o SFMOMA também publicou no Spotify a playlist RM x SFMOMA, com 10 músicas e 34 minutos de duração. Tem Younger Days, do Sanullim, Just Wrong, de Pino Palladino e Blake Mills, Track 3, da Lee Sora, e Dream, do Ryuichi Sakamoto, entre outras.

Perguntas frequentes sobre o audioguia do Namjoon

Algumas dúvidas sobre o audioguia do Namjoon aparecem sempre. Respondi as principais aqui, curtinho.

Onde ouvir o audioguia da exposição do Namjoon?

O audioguia da exposição RM x SFMOMA: Between You and Me está disponível no site do SFMOMA, na página Explore a exposição com o RM. Dá para ouvir de qualquer lugar, sem precisar estar no museu.

O audioguia do Namjoon tem versão em português?

Não. O audioguia do Namjoon existe em inglês e em coreano. A tradução completa da versão em inglês está neste artigo.

A versão em inglês e a versão em coreano são iguais?

Elas são diferentes. Segundo o SFMOMA, as duas versões foram produzidas a partir de duas entrevistas separadas e sem roteiro, uma em cada idioma, então o conteúdo muda de uma para a outra.

Quantas partes tem o audioguia do Namjoon?

São 11 partes: Prefácio, Blue Water, Friendscape, Home, Photobuddha, People, Passion, I Don’t Know But I Like It, Umber I, Umber II e os créditos. A sala Umber, dedicada a Yun Hyong-keun, é a única com duas partes, e os créditos são narrados pela cocuradora América Castillo.

Quem produziu o audioguia do RM x SFMOMA?

O audioguia foi narrado pelo Namjoon e produzido por Haeryun Kang, com apoio de Fengxue Zhang, em parceria com a BigHit Music, a HYBE e a HYBE INSIGHT, e com apoio da Samsung Electronics. A narração em inglês e a narração em coreano saíram de entrevistas separadas, gravadas sem roteiro.

Coloque o fone e aproveite

Uma exposição de arte costuma ser uma experiência que só existe dentro do museu. O Namjoon disse isso logo no prefácio, com uma ponta de inveja da música, que pode tocar em qualquer lugar: no carro, no banho, no ar. Pois o audioguia do Namjoon fez justamente essa travessia. Pegou um pedaço da exposição e colocou no ar, pra quem não pode estar lá.

Ficar de frente para um Yun Hyong-keun, ao vivo, continua sendo outra história. Enquanto isso, dá pra ouvir o Namjoon explicando por que perde as palavras diante dele. E, sinceramente, isso já me ganhou. Abra o audioguia no site do SFMOMA, coloque a playlist pra tocar depois e me conte: qual sala você gostaria de visitar hoje e porque a resposta é todas?

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