Exposição do Namjoon no SFMOMA: o Namjoon aparece de costas, com o cabelo curto castanho-avermelhado, óculos e um moletom com capuz cinza-escuro, diante de uma parede clara do museu onde acabou de deixar uma grande assinatura em traço preto, com "RM" e uma data parcialmente encoberta pela cabeça dele. A foto foi compartilhada pelo próprio Namjoon nos stories do Instagram. À direita, sobre fundo bege, a capa do Bangtan Now traz o logo do blog, a palavra "Artigos" e os textos "Exposição do Namjoon", em vermelho, e "Tudo sobre RM x SFMOMA, Between You and Me, em São Francisco", em cinza.

Exposição do Namjoon: tudo sobre RM x SFMOMA, Between You and Me, em São Francisco

Se existe um dia em que todos os meus mundinhos resolveram colidir de uma vez só, foi o dia em que a exposição do Namjoon no SFMOMA deixou de ser só um anúncio nas redes sociais e virou paredes, molduras, audioguia e textos escritos à mão. E eu preciso te contextualizar o motivo pelo qual isso me pegou de um jeito tão específico.

Primeiro: Namjoon é meu UTT. Pra quem não fala fandomês fluente, é o ultimate, o bias acima de todos os biases, aquele que você defende em qualquer discussão sem nem ler o que o outro escreveu. Segundo: eu vivo no mundo da arte, respiro arte. Sou casada com um doutor em arte, artista visual, então lá em casa a visita a museus é um hábito tão comum quanto ir no shopping. Meu apartamento? Bom, não há paredes suficientes para tantas telas. E como se não bastasse, eu ainda tenho um projeto próprio de curadoria de espaços de arte, o Onde Ver Arte. Ou seja: eu passo parte da minha vida mergulhada no BTS e parte entre quadros, esculturas e textos de parede.

Aí o meu queridíssimo UTT vai lá e faz apenas a curadoria de uma exposição com a própria coleção, num dos museus de arte moderna mais importantes dos Estados Unidos, escolhendo obras, escrevendo legendas, gravando audioguia e até escolhendo as músicas que tocam nas salas. Meu amor, não dá. Meus dois mundos se encontraram na exposição do Namjoon, no sétimo andar de um prédio em São Francisco, e eu estou aqui, do outro lado do continente, querendo muito, mas muito mesmo, poder me teletransportar. Porque dinheiro para pegar um avião e baixar lá não vamos estar tendo, infelizmente.

E como não dá pra se teletransportar (ainda), fiz uma das coisas que eu sei fazer de melhor: juntei tudo o que saiu sobre a exposição do Namjoon no nosso canal do Telegram, li a cobertura de quem esteve na prévia de imprensa, cruzei com o que o museu divulgou e com o que o próprio Namjoon disse e, bem, nasceu esse artigo. Se você também não vai conseguir ir (abraça), pelo menos aqui você vai entender cada sala como se estivesse lá. E se você for, faça um favor: me conte tudo depois.

O que você vai ver aqui
  1. O que é a exposição do Namjoon
  2. O que é RM x SFMOMA: Between You and Me
  3. As oito seções da exposição do Namjoon
  4. Yun Hyong-keun ao lado de Rothko: a escolha mais Namjoon da exposição
  5. Os artistas coreanos que você vai querer conhecer depois da exposição do Namjoon
  6. Audioguia, textos de parede, trilha sonora: tudo passou pela mão dele
  7. O discurso do Namjoon na estreia como curador
  8. Os bastidores da abertura da exposição do Namjoon
  9. Namjoon e a arte: como chegamos até aqui
  10. Como visitar a exposição do Namjoon em São Francisco
  11. Perguntas frequentes sobre a exposição do Namjoon
  12. Entre você e eu

O que é a exposição do Namjoon

Pra quem chegou aqui no modo busca-rápida, aqui vai o essencial sobre a exposição do Namjoon:

  • Nome oficial: RM x SFMOMA: Between You and Me (em coreano, 너와 나 사이, “Entre você e eu”);
  • Onde: SFMOMA, o Museu de Arte Moderna de São Francisco, 7º andar (151 Third Street, São Francisco, Califórnia);
  • Quando: de 3 de outubro de 2026 a 7 de fevereiro de 2027. Membros do museu têm prévia de 1º a 3 de outubro;
  • O que é: a exposição do Namjoon é a primeira mostra em um museu com obras da coleção pessoal dele, com foco em arte coreana moderna e contemporânea, em diálogo com obras do acervo do SFMOMA;
  • Quantas obras: são 178 peças, sendo 142 da coleção dele e 36 do museu, segundo o que foi apresentado à imprensa. O SFMOMA divulgava “quase 200” antes da abertura;
  • Curadoria: Namjoon, com as cocuradoras América Castillo e Hyoeun Kim, do SFMOMA;
  • Exclusividade: o SFMOMA é o único lugar nos Estados Unidos que recebe essa coleção;
  • Audioguia: narrado pelo próprio Namjoon, em inglês e coreano, e disponível também no site do SFMOMA para ouvir de qualquer lugar.

Pode respirar. Agora, pra quem ficou: vamos percorrer cada sala da exposição do Namjoon.

O que é RM x SFMOMA: Between You and Me

RM x SFMOMA: Between You and Me, a exposição do Namjoon no SFMOMA, marca a estreia dele como curador. A coleção dele nunca tinha sido mostrada num museu, e o SFMOMA também nunca tinha feito uma parceria desse tipo com um artista do K-pop. É tudo muito, muito inédito. Segundo o diretor do museu, Christopher Bedford, em declaração ao Patch, é a maior apresentação de arte coreana nos 92 anos de história da instituição. O New York Times, citado pelo próprio museu, disse que a iniciativa não tem paralelo óbvio. Eu diria que é o tipo de coisa que só acontece quando alguém passa quase dez anos comprando arte com o coração e não com uma planilha para ver o que vai ou não hitar em breve.

A exposição do Namjoon ocupa o sétimo andar do museu e é dividida em oito seções, organizadas por emoção e afinidade, não por cronologia nem escola artística, que costuma ser o mais comum. Lá você não vai encontrar nada daquela linha do tempo de livro didático, com “arte moderna à esquerda, contemporânea à direita”. Aqui um Kim Whanki pode estar ao lado de um Yves Klein, um gato coreano do século 17 pode dividir uma mesma parede com um tigre pintado por um americano em 2019, e está tudo certo. Mais do que certo, é exatamente essa a proposta.

Como a exposição do Namjoon nasceu

Segundo o próprio, a ideia veio dois anos atrás, quando Namjoon ainda cumpria o serviço militar. Quem propôs foi América Castillo, gerente de projetos curatoriais do SFMOMA, que teve uma ideia simples e bem ousada: pegar o jeito muito particular que o Namjoon tem de olhar pra arte e mostrar isso para as pessoas. Depois também entrou a Hyoeun Kim na jogada, que é curadora assistente de pintura e escultura do museu e especialista em arte coreana.

E o Namjoon, com a sinceridade de sempre, contou no discurso de abertura que, estando no exército, ficou muito feliz com a proposta. Mas que mesmo que não estivesse lá, provavelmente teria ficado feliz com qualquer proposta vinda de São Francisco. Eu ri alto. Porque é verdade, né? Quem está servindo o exército, meio isolado de tudo, e recebe um convite desses, aceita até convite pra organizar festa junina. E sendo do SFMOMA, não importa o momento, você só vai. Até um cara como ele.

Mas ele também explicou o motivo mais a sério: achou que seria uma boa experiência antes de um dia abrir o próprio espaço, um sonho que ele alimenta há anos e sobre o qual já falou em entrevistas e no Art Basel. Não vejo a hora da Rkive Gallery vir aí.

O que “Between You and Me” quer dizer

O título em coreano, 너와 나 사이, significa “entre você e eu”. E ele não está ali por acaso. O Namjoon passou os últimos anos falando sobre viver nas fronteiras: entre o Oriente e o Ocidente, entre a Coreia e os Estados Unidos, entre o moderno e o contemporâneo, entre o pessoal e o universal. No comunicado oficial do museu, ele disse que vivemos numa era definida por fronteiras e que só espera que a exposição seja uma ponte pequena, mas firme, para muita gente.

No prefácio do catálogo, ele foi ainda mais longe. Foi divulgado um trecho desse texto, e ele merece ir na íntegra, porque eu li e precisei parar um pouco pra pensar:

“Dizem que tudo neste mundo está conectado. Mas eu continuo vivendo na fronteira.

Entre Seul e São Francisco, entre o palco e o que acontece nos bastidores, entre mim diante de um quadro e alguém do outro lado do quadro. Estou sempre em algum lugar no meio.

Eu sou o RM, do BTS, e o Kim Namjoon, de trinta e dois anos.

A arte foi, para mim, uma língua em que era fácil falar. Diante de um quadro, bastava eu ser apenas um espectador. Dava para olhar com calma, sem medo de fazer algo errado. Por isso, aonde quer que eu fosse, a primeira coisa que eu procurava era um museu.

Mas, depois de passar por tantos lugares pelo mundo, fui me lembrando cada vez mais do tempo e das sensações da Coreia em que cresci.

Cada vez que eu me deparava com algo desconhecido, eu entendia, ao contrário, cada vez mais claramente de onde eu vim.

E, mesmo assim, eu quase não sabia nada sobre as pessoas que criaram tudo aquilo.

Depois, comecei a procurar as obras delas e, aos poucos, mergulhei de cabeça. E então, sem pensar muito, comecei a reunir uma obra, depois outra… e, quando percebi, já eram cerca de quatrocentas.

Algumas delas atravessaram o oceano e agora estão penduradas aqui.

Ao lado das obras do SFMOMA: pela primeira vez.

Se isso também puder ser chamado de uma flor que desabrochou na fronteira, eu ficaria muito feliz.”

E na entrada da exposição, ao lado da assinatura dele, está a frase que ele mesmo compartilhou nos stories:

“Esta exposição é sobre essas harmonias aparentemente óbvias, mas estranhas.”

Harmonias óbvias e estranhas. Guarde essa ideia, porque ela explica cada par de obras que você vai ver daqui pra frente.

E, a propósito, o título da exposição quase foi outro. No audioguia, o Namjoon conta que pensou em opções como Meet Me Halfway (“me encontre no meio do caminho”) e sai, que em coreano significa “entre”. Venceu o “entre você e eu”: coreano e americano, RM e SFMOMA, conversando na mesma sala.

Quantas obras tem a exposição do Namjoon e de onde elas vêm

Na prévia de imprensa, em 29 de setembro, foram confirmadas 178 obras: 142 da coleção pessoal do Namjoon e 36 do acervo do SFMOMA. Antes da abertura, o museu falava em “quase 200” e em cerca de 150 peças dele. A diferença é normal em exposições: listas finais sempre mudam até a última semana de montagem (quem já acompanhou montagem sabe que o caos é real).

A coleção inteira dele, segundo o próprio Namjoon, tem mais de 400 obras. Então o que está em São Francisco é um recorte, uma seleção de pouco mais de um terço do que ele guarda.

E o arco temporal é enorme. As peças vão de uma pequena escultura de barro em forma de boi, de por volta do século 5, até obras de artistas nascidos nos anos 1990, como Kim Dung-ji. São cerca de 1.500 anos de arte coreana cabendo num andar de museu – e a maioria sendo de uma única pessoa. Aaaaah Kim Namjoon! Entre as obras há pinturas, desenhos, esculturas, cerâmicas, caligrafias, tecidos, fotografias, móveis e designs.

Do lado do SFMOMA, entram nomes que qualquer pessoa que já folheou um livro de arte moderna reconhece: Mark Rothko, Yves Klein, Agnes Martin, Henri Matisse, Georgia O’Keeffe, Donald Judd, Wayne Thiebaud, Milton Avery, Nam June Paik e Kim Whanki, entre outros.

As oito seções da exposição do Namjoon

A exposição do RM tem oito seções, e os nomes delas aparecem escritos à mão pelo próprio Namjoon na capa do catálogo, em inglês e coreano: Água azul, Paisagem com amigos, Pessoas, Paixão, Casa, Photo Buddha, Terra de sombra (umber) e aquela que já virou a minha favorita sem nem ter visto: Não sei explicar com palavras, mas eu gosto.

Segundo a curadora Hyoeun Kim, quem manda na ordem das salas é a emoção, e a cronologia dos livros de história da arte fica em segundo plano. O efeito, nas palavras dela, é que você chega na exposição pelo olhar do Namjoon e vai embora tendo que encarar o seu. Boa, hein?

Antes de começar, um aviso: as obras da exposição são protegidas por direitos autorais, então não dá para reproduzir as imagens aqui no blog. Sempre que encontrei um post do Instagram mostrando alguma das obras citadas, deixei o post no meio do texto. Para as outras, copie o nome do artista e o título da obra e jogue na busca de imagens do Google. Vale a pena, prometo.

Pra ter uma ideia de como as salas ficaram, o próprio SFMOMA divulgou um primeiro olhar com clipes de Bluewater, Friendscape, Home e Umber (e aproveitou para recomendar fones de ouvido para o audioguia):

Ok, dito isso, vamos por partes.

Bluewater: onde a exposição do Namjoon começa

A primeira sala abre com os famosos quadros de pontos azuis de Kim Whanki, um dos pais da abstração coreana. E aqui já vem a primeira harmonia estranha: o 26-I-70 #141, que pertence ao SFMOMA e foi doado pela viúva do artista, fica ao lado do 15-VII-70 #181, pintado no mesmo ano, que é da coleção do Namjoon. Dois quadros do mesmo artista, do mesmo ano, que passaram décadas em lados opostos do mundo, finalmente se reencontrando. Chega a ser bonito, né?

Kim Whanki pintou essas obras em Nova York, morrendo de saudade da Coreia. Ele dizia que não conseguia separar a própria arte de Seul. Os pontos são quase constelações, e a melancolia está espalhada em cada um deles.

Perto deles fica a esponja azul de Yves Klein, o francês que registrou a fórmula do próprio tom de azul (sim, existe um azul Klein). Pelo que o museu aponta, os dois usaram essa cor para falar de algo maior do que a tela, o cosmos, o infinito. Kim chegou lá repetindo pontinhos até perder a conta; Klein, tirando tudo da pintura até sobrar só a cor.

A sala ainda coloca a Falling Blue de Agnes Martin conversando com as grades monocromáticas de Chung Sang-hwa, e as famosas gotas d’água de Kim Tschang-yeul de frente para It Seemed a Beautiful Day, instalação de Tony Feher feita com garrafas plásticas de água penduradas. São dois lutos diferentes, um de frente para o outro: as gotas de Kim Tschang-yeul vêm de alguém que atravessou a Guerra da Coreia, e as garrafinhas de Feher lembram o céu limpo de Nova York na manhã de 11 de setembro de 2001. Nos dois casos, a água guarda algo que ficou – cronologicamente para trás, mas também na memória.

Eu fiquei emocionada só de ouvir o Namjoon falando dessa sala no audioguia, e ainda estamos na primeira.

Friendscape: a sala dos amigos (e dos gatos)

O nome é um trocadilho entre friend (amigo) e landscape (paisagem). A seção mistura amigos humanos, amigos animais e paisagens, e começa com os peixes de bronze de Ugo Rondinone, passa por codornas pintadas por Jeong Seon, um dos grandes mestres da pintura de paisagem coreana do período Joseon, e pelos gansos de Jo Yeong-seok.

Tem mais pares deliciosos por aqui. Uma paisagem de To Sangbong, da coleção do Namjoon, conversa com o Lake George de Georgia O’Keeffe, do acervo do museu. O Work (Trees), de Yoo Youngkuk, pintado em 1981, divide o espaço com Clear Cut Landscape, de Milton Avery, de 1951. Três décadas e um oceano separam os dois quadros, e mesmo assim as árvores de um parecem primas das árvores do outro, simplificadas até virarem quase só blocos de cor.

Mas o momento da exposição do Namjoon que me derreteu foi saber da parede dos gatos. Numa mesma parede, lado a lado, estão Spring Sleep, de Kang Yobae, com um gato dormindo tranquilamente, um tigre do século 17, uma obra de autor desconhecido dos séculos 19 e 20, Bird and Cat, de Kim Dung-ji, e Clown and Beast, de Wayne Thiebaud, em que um palhaço, que é o próprio artista, aparece embaixo de um tigre, e ninguém sabe dizer se o bicho quer brincar ou jantar ele. A única coisa que une essa parede são os felinos. Só isso. Eu amo.

E aqui entra uma das histórias mais fofas de toda a exposição, contada pelo próprio Namjoon no texto de parede da seção:

“FRIEND SCAPE.

Existe um ditado: ‘O cachorro é o melhor amigo do homem.’

Mas será que isso vale só para os cachorros? Os animais, de modo geral, se tornam exatamente esse tipo de companhia para nós.

Três anos atrás, quando fiz uma exposição anônima na Coreia, o lugar onde os visitantes mais demoravam era diante de um quadro com a imagem de um gato, pintado por um artista desconhecido cem ou duzentos anos atrás.

‘A fofura vai salvar o mundo!’

Na Coreia também existe esse ditado.

Eu não tinha como objetivo salvar o mundo, mas, procurando amigos que pudessem me fazer companhia, acabei naturalmente cercado de animais fofos.”

Sim. Uma exposição anônima do Namjoon existiu, na Coreia, e o ARMY passou reto sem saber. Estou em luto até agora (não que eu pudesse ter ido, but). E veja bem, eu não tenho nenhuma confirmação disso além das vozes da minha cabeça, então fica registrado como pura especulação minha: a obra de autor desconhecido dos séculos 19 e 20 naquela parede dos gatos combina direitinho com a descrição do gato que roubou a cena na exposição anônima. Se for o mesmo quadro, o bichano ganhou turnê internacional. Merecido.

Home: a casa do Namjoon dentro do museu

Se tem uma sala que eu mais queria ver com meus próprios olhos, é essa. A seção Home recria a atmosfera da casa do Namjoon, o lugar onde ele vive cercado pelas obras que coleciona. Quem já viu fotos do lugar ou alguns vídeos que ele deixou escapar aqui e ali sabe que tudo ali é coberto de quadros e pilhas de livro por todo lado, inclusive no chão. Eu moraria facilmente num lugar assim? Meio que já moro num. O repórter do Seoul Economic Daily que visitou a prévia apontou essa sala como o auge da curadoria dele, e o motivo é ótimo: ninguém precisa saber nada de história da arte pra sentir o que ela quer dizer.

As paredes são cobertas pelas pinturas pequenas de Chang Ucchin, algumas do tamanho de duas palmas de mão. Chang pintava animais, crianças e o cotidiano coreano com uma leveza e um humor que dão vontade de sorrir. América Castillo resumiu bem o que ele faz: leva o cotidiano a sério, sem nenhuma pirotecnia. Se isso não resume o gosto do Namjoon, eu não sei o que resume.

Aqui também estão os vasos de flores de Giorgio Morandi ao lado de Forsythia, de To Sangbong, que pintou um vaso de porcelana branca com flores amarelas de forsítia. Morandi passou a vida pintando as mesmas garrafas e potes no ateliê em Bolonha, e To Sangbong fez algo parecido com vasos de porcelana coreana. Dois obcecados por objetos quietos, finalmente lado a lado. Os vasos mais expressionistas de Kwon Okyon, por sua vez, conversam com Henri Matisse.

E tem uma sala com móveis de madeira do período Joseon e cerâmica buncheong – que é um tipo de cerâmica coreana coberta por uma camada de argila branca – que faz qualquer visitante imaginar como é a sala de estar dele. Eu imaginei. Várias vezes. Não me julgue. Você deve estar imaginando agora também.

Photo Buddha: aqui pode tirar foto

Essa seção da exposição do Namjoon tem o TV Buddha, de Nam June Paik, o artista coreano considerado o pai da videoarte: uma estátua de Buda que assiste à própria imagem num circuito fechado de TV. E, por um acaso lindo, a coleção do Namjoon tem a obra e o SFMOMA tem um desenho do próprio Paik sobre essa mesma peça. No audioguia, Namjoon chama o encontro das duas de “uma colaboração bonita”.

Ao lado, um Buda de madeira de Kwon Jin-kyu. E, segundo quem esteve lá, um aviso escrito à mão pelo Namjoon libera os visitantes para fotografar. Um Buda olhando pra si mesmo na TV, e nós, com o celular na mão, olhando pro Buda. Eu desconfiei que tinha uma piada sobre selfie escondida aí, e ele confirmou no audioguia: a ideia é que a sala funcione como uma cabine de fotos, daquelas que os coreanos usam sempre que saem com os amigos. Você tira uma selfie ao lado do Buda e depois pensa no que isso significa.

People e Passion: as seções das vidas humanas

A cobertura da prévia de imprensa detalhou pouco essas duas seções, mas o audioguia resolveu o mistério. Em People, Namjoon juntou retratos e fotografias de todo tipo de gente: casais, mulheres, irmãs, irmãos. Ele conta que, nas retrospectivas de artistas, o que sempre o prende por mais tempo são os autorretratos, e que tenta lembrar a si mesmo que por trás de qualquer moldura, até de um Picasso ou de um Matisse, existe uma pessoa. Eu entendo a fascinação, como esposa de um artista que ama retratos e autorretratos. A estrela da sala é a fotografia de um casal na Seul dos anos 1950, de Han Youngsoo, que estava pendurada na parede da casa dos pais dele. Ele simplesmente pegou emprestado. Os pais pediram pra ele trazer outra foto no lugar. Achei justo.

Em Passion, estão os artistas que, nas palavras dele, realmente viveram a vida. O destaque é uma pintura abstrata de Park Rehyun, a pintora que criou quatro filhos, foi a voz e os ouvidos do marido surdo, também pintor, e ainda construiu uma obra própria. Que mulher! Sobrecarregada, como a gente, mas eficiente ao menos. O Namjoon diz, sem rodeios, que gosta mais da pintura dela do que da do marido. Eu ri.

Nas faixas do audioguia do Namjoon, ele fala de cada uma dessas salas com calma e muitos detalhes.

I Don’t Know But I Like It: a seção mais honesta da exposição

“Não sei explicar com palavras, mas eu gosto.” Isso está escrito à mão na capa do catálogo, e virou o nome de uma seção. No discurso de abertura, Namjoon explicou melhor: às vezes, nem ele entende por que juntou todas essas coisas. Então deu a uma das seções esse nome, porque é a sensação sincera dele. E eu entendo, você provavelmente também: às vezes a gente só gosta de algo, mas não sabe explicar o motivo.

O museu descreve essa sala como a das obras difíceis de encaixar em qualquer gaveta ou classificação. Mesmo assim, elas têm a cara da coleção dele: cores baixas, suavidade, nada gritando.

Uma das peças que ele comenta no audioguia são as cerâmicas We are Outlaws, de Yoshitomo Nara, o artista japonês conhecido pelas crianças de olhar desafiador. São porcelanas brancas, e ele confessa que prefere as pretas, pintadas com ferro e “mais baratas”, às azuis que todo mundo ama, porque lembram a porcelana coreana antiga. E tem história por trás disso: os dois se conheceram em Seul, em 2023, pouco antes do alistamento dele, numa abertura de galeria em que o Nara dispensou champanhe e levou makgeolli, um vinho de arroz coreano, pra beber em copo de papel. Impossível não gostar dessa história. Eu já me tornei fã dele.

E eu sinto que essa sala da exposição do Namjoon é um presente pra quem acha que precisa “entender de arte” pra gostar de arte. Anote aí: não precisa. Eu vivo mergulhada em arte, sou casada com um artista e concordo plenamente. Você não precisa de uma pós-graduação nem de ter lido grandes nomes pra gostar de arte, apreciar, respirar arte. O próprio curador está ali dizendo que também não sabe explicar tudo o que sente. Ninguém sabe, meu amor. Tem gente que só finge melhor.

Umber: a sala de Yun Hyong-keun que encerra a exposição do Namjoon

A última seção é dedicada a Yun Hyong-keun, o artista coreano favorito do Namjoon, com uma galeria inteira só pra ele: dezesseis obras. Umber é o nome em inglês da cor terra de sombra, aquele marrom escuro que Yun usava em camadas sobre o azul ultramar, até a tinta se infiltrar no linho e quase virar preto.

Yun chamava essas pinturas de “portões do céu e da terra”: o azul era o céu, o umber era a terra. Uma das obras que estão nessa seção é justamente Blue-Umber ’79-C6, de 1979.

Nessa sala também está um dos encontros mais bonitos da exposição inteira, porque ele aconteceu de verdade: Yun e o artista americano Donald Judd se conheceram em 1991 e viraram amigos. Judd passou a defender o trabalho de Yun internacionalmente. Na exposição, Burnt Umber & Ultramarine, de Yun, de 2001, fica ao lado de To Susan Buckwalter, de Judd, de 1964. Um pintava, o outro construía caixas e volumes, e os dois perseguiam a mesma coisa com pouquíssimos elementos. Uma amizade de verdade pendurada na parede. Poético, eu diria.

Mas Yun merece uma seção só dele aqui no artigo também. Então, vamos lá.

Yun Hyong-keun ao lado de Rothko: a escolha mais Namjoon da exposição

Pra entender o que o Namjoon fez com Yun Hyong-keun em São Francisco, você precisa saber de uma coisa: Yun é frequentemente apresentado no Ocidente como “o Rothko coreano”. É uma comparação que parece elogio, mas carrega um “probleminha”: coloca um artista coreano sempre à sombra de um americano. Não, né.

Então o Namjoon pegou o Untitled 1986-90, de Yun, da coleção dele, e pendurou lado a lado com o No. 14, 1960, de Mark Rothko, do acervo do SFMOMA. E explicou o motivo, segundo registrou o jornal Seoul Economic Daily, que esteve na prévia:

“Yun Hyong-keun é frequentemente apresentado como ‘o Rothko coreano’. Eu não quis deixar Yun como sombra de ninguém. Por isso, pendurei os dois lado a lado. Para vocês verem com os próprios olhos. Um é coisa do céu, o outro é coisa da terra. A única semelhança é a escuridão. E até essa escuridão faz coisas diferentes.”

Eu li isso e fiquei uns bons minutos olhando pro nada. Porque isso é curadoria de verdade, meu amor. Ele poderia ter usado um nome famoso para emprestar prestígio a um artista menos conhecido fora da Coreia. Preferiu colocar os dois no mesmo nível e deixar o visitante decidir. O mesmo jornal lembra que, em valor de mercado, a diferença entre os dois passa de cem vezes. Namjoon olhou pra isso e disse: não importa.

A música Yun, de Indigo, e o artista que ensinou o Namjoon a ser humano primeiro

Bom, se você é ARMY de longa data, já sabe que essa relação não começou agora. O álbum solo Indigo, de 2022, abre com uma música chamada Yun, com participação de Erykah Badu, batizada em homenagem ao pintor. No audioguia da exposição, ele mesmo lembra que fez a capa do álbum com uma pintura de Yun, e já tinha falado de Indigo como uma homenagem ao artista.

No Tiny Desk da NPR, ele resumiu a filosofia que aprendeu com Yun: primeiro você precisa ser humano, depois fazer arte. Para Yun, a régua que mede uma boa pessoa é a mesma que mede um bom artista, e a pessoa sempre vinha na frente. Essa ideia atravessa a música inteira e conversa com o álbum Indigo inteiro.

Yun Hyong-keun nasceu em 1928, viveu a juventude durante a Guerra da Coreia, foi preso mais de uma vez num período de forte repressão política e carregou isso na pintura: a sobriedade, a densidade, o silêncio. Ele foi aluno de Kim Whanki e, depois, genro dele (sim, o mesmo Kim Whanki que abre a exposição na sala azul). E é uma das figuras centrais do Dansaekhwa, o movimento de pintura monocromática coreana dos anos 1970.

Agora pense comigo: a exposição do Namjoon abre com Kim Whanki, no azul, e fecha com Yun Hyong-keun, no umber. O mestre na primeira sala, o discípulo na última, o céu na entrada e a terra na saída. E, lá atrás, em 2022, o Namjoon já tinha aberto o primeiro álbum solo de estúdio com o nome desse mesmo artista.

Eu não sei você, mas eu não consigo ouvir Yun agora do mesmo jeito. E, sim, eu fui ouvir de novo enquanto escrevia isto. (E o azul, cor favorita dele desde criança, não aparece só aqui: ele domina também os MVs solo do Namjoon.)

Os artistas coreanos que você vai querer conhecer depois da exposição do Namjoon

Uma das coisas mais bonitas da exposição do Namjoon é que ela coloca na frente do público internacional (e de milhões de ARMYs) nomes que ainda são pouco conhecidos fora da Coreia. Ele mesmo disse no discurso que muitos desses artistas ainda não são famosos fora do país. Então aqui vai um miniguia, com base nas obras que o SFMOMA já revelou, pra você sair desta leitura com uma listinha pra pesquisar:

  • Yun Hyong-keun (1928–2007): o favorito dele, que você já conheceu aí em cima. Untitled, de 1973, é do começo da fase mais famosa dele, quando passou a deixar a tinta escura manchar o linho cru.
  • Kim Whanki (1913–1974): um dos pais da abstração coreana, sogro e professor do Yun. Tem três obras na exposição: duas da coleção do Namjoon (uma delas saiu direto da sala de estar dele) e uma do acervo do SFMOMA.
  • Chang Ucchin (1917–1990): um dos grandes modernistas coreanos, conhecido pelos quadros de formato mínimo, cheios de casinhas, árvores, bichos e crianças desenhados com traço quase de criança, mas com um controle absurdo. The River Scene, de 1988, foi uma das imagens usadas para divulgar a exposição.
  • Han Youngsoo: fotógrafo que registrou a vida comum em Seul depois da guerra. A foto Deoksugung Palace, Jeong-Dong, Seoul, feita entre 1956 e 1963, veio direto da parede da casa dos pais do Namjoon.
  • Lee Wonwoo: representante da geração mais nova, que brinca com palavras e objetos. Em Candy valley_2023_002, a palavra “candy” aparece aplicada numa pedra, e a obra mostra como uma palavra só consegue mudar o peso de um objeto inteiro.
  • Yoo Youngkuk (1916–2002): pioneiro da abstração coreana, que passou décadas pintando montanhas reduzidas a planos de cor intensa. Na exposição, aparece com Work, de 1982, e com a tela das árvores que conversa com Milton Avery.
  • Kim Yun-shin (1935): escultora que trabalha a madeira com motosserra e que participou da Bienal de Veneza de 2024 já perto dos 90 anos. A obra Add Two Add One, Divide Two Divide One 2015-9 está na exposição. E aqui um detalhe que me deixou toda boba como latino-americana: ela se mudou para a Argentina em 1984 e passou cerca de quatro décadas em Buenos Aires antes de voltar a trabalhar na Coreia.
  • Park Rehyun (1920–1976): a pintora que criou quatro filhos, foi a intérprete do marido surdo, o também pintor Kim Ki-chang, e mesmo assim construiu uma obra própria. Está na seção Passion.
  • To Sangbong (1902–1977): pintor de naturezas-mortas e paisagens, que aparece em duas salas: ao lado de Morandi, na Home, e com a paisagem de um jardim de palácio, na Friendscape.

A conta coreana de arte ARTUE fez um exercício que eu amei: reuniu as obras que o museu revelou antes da abertura, chamou atenção para a distância entre elas, de gerações, técnicas e origens diferentes, e perguntou aos seguidores quais duas eles queriam ver lado a lado primeiro. Dê uma olhada no post:

Audioguia, textos de parede, trilha sonora: tudo passou pela mão dele

Se você achou que “curadoria” significava só escolher os quadros, Namjoon está aqui pra te mostrar que não. Na exposição do Namjoon, ele:

  • escolheu as obras e decidiu onde cada uma ficaria;
  • escreveu os textos de parede e as legendas, em coreano e em inglês;
  • gravou o audioguia nos dois idiomas;
  • montou a playlist que toca nas salas;
  • opinou até nas molduras.

Nas palavras dele, da escolha das obras à disposição, da apresentação às molduras, ele tentou reunir tudo o que gostava e tudo o que achava que poderia ser feito melhor. Pode vir Rkive Gallery, o homem tá prontíssimo!

O audioguia é a melhor parte pra quem não vai conseguir ir, e eu explico o motivo daqui a pouco. Você anda pelas salas ouvindo a voz do Namjoon contando o que sente por cada obra. A ELLE Japan resumiu bem a situação: dá pra conhecer, pela voz dele, os sentimentos que ele tem por cada peça. Esse é o tipo de passeio que eu faria três vezes seguidas. Quatro, se me deixassem.

E tem os textos de parede. Namjoon contou que reescreveu, apagou e reescreveu centenas de vezes as legendas das obras. A parte mais difícil, segundo ele, foi fazer caber em cem palavras. Meu amor, eu escrevo pra internet há mais de dez anos e te garanto: é a parte mais difícil pra todo mundo. Bem-vindo ao clube, Joonie.

A trilha sonora oficial da exposição do Namjoon

E a exposição do Namjoon tem até trilha sonora. Bem, a cara dele, né. O SFMOMA publicou no Spotify a playlist RM x SFMOMA, com 10 músicas e 34 minutos de duração. Entre as faixas estão Younger Days, do Sanullim, Just Wrong, de Pino Palladino e Blake Mills, Track 3, da Lee Sora, e Dream, do Ryuichi Sakamoto.

Não dá pra ir a São Francisco? Pelo menos o fone de ouvido já dá pra levar pra exposição, nem que seja em pensamento:

Audioguia do Namjoon: dá para ouvir de qualquer lugar

Agora a notícia que fez meu dia: o SFMOMA liberou o audioguia da exposição do Namjoon no próprio site, com o título “Explore a exposição com o RM”. Você pode ouvir o Namjoon apresentando cada sala daí mesmo, do sofá, do ônibus, da fila do mercado. Está tudo na página oficial do audioguia.

São 11 faixas: um prefácio, uma faixa para cada seção e os créditos, narrados em inglês ou coreano. E tem um detalhe lindo: as duas versões nasceram de duas entrevistas separadas e sem roteiro, uma em cada idioma. Ninguém traduziu um texto pronto. Por isso o conteúdo muda de uma versão para a outra.

Alguns momentos que eu não consigo tirar da cabeça:

  • No prefácio, ele pede para ser chamado de Namjoon, “ou Joon, se for muito longo”, e dá as boas-vindas agradecendo por passarmos um tempo com a confusão dele.
  • Na Photobuddha, olhando o Buda que assiste à própria imagem na TV, ele solta: “Nós somos a TV dele.”
  • Na primeira sala do Yun, conta que voou até Veneza, em 2019, só para ver uma exposição do pintor. Não a Bienal inteira. Só o Yun.

Eu reuni a tradução de todas as faixas do audioguia do Namjoon, com as obras citadas em cada sala. Coloque o fone e aproveite.

O discurso do Namjoon na estreia como curador

Na prévia de imprensa da exposição do Namjoon, em 29 de setembro, ele subiu ao palco pela primeira vez como cocurador. Eu poderia resumir, mas esse discurso é bom demais pra ser resumido. Então aqui vai ele na íntegra, traduzido, porque você merece ler cada palavra. Meu agradecimento à Camis, que foi quem traduziu e quem publicou muito conteúdo lá no canal do Bangtan Now pra gente, enquanto trabalhava (ou tentava). Te amo, amiga.

“Olá. Boa tarde. Agradeço sinceramente a presença de vocês.

Bom, faz um bom tempo que eu não faço um discurso. Então, é… Olá, meu nome é RM. Hoje é a minha primeira vez falando como cocurador. E eu estou nervoso. Tá bom, vamos começar.

Antes de tudo, eu sou uma pessoa muito, muito contraditória e confusa. Vocês ainda vão perceber isso depois. E obrigado pela música [um celular tocou nessa hora]. Obrigado.

Acho que reescrevi este discurso umas dez vezes. Mas, de algum jeito, quanto mais eu trabalhava nele, mais eu me confundia, como sempre.

Quando, oito anos atrás, comecei a ir a museus pela primeira vez, quando comecei a olhar para a arte com atenção, é claro que eu não conseguia imaginar que um dia como este chegaria.

Ao longo desses anos, falei muito sobre coisas como o pessoal e o universal, o Oriente e o Ocidente, a arte moderna e a contemporânea. Mas agora, que esta exposição está realmente prestes a abrir, de repente me peguei pensando: será que tudo isso importa mesmo? Talvez o principal seja que a exposição seja boa, nova e interessante.

Dois anos atrás, quando eu estava servindo no exército, recebi pela primeira vez uma proposta séria do SFMOMA, e gostei muito dela. Claro que, se eu não estivesse no exército naquela época, talvez também ficasse feliz com qualquer proposta vinda de São Francisco. É.

Mas também pensei que poderia ser uma boa experiência antes de, um dia, abrir o meu próprio espaço, com o qual eu sonho. Pensei também que, num lugar dessa dimensão e com esse prestígio, talvez eu pudesse aproveitar o espaço de outra pessoa e tentar fazer algo interessante.

Então comecei esse projeto com uma disposição totalmente inocente. Só não sabia que, no fim, essa inocência me faria escrever, apagar e reescrever centenas de vezes as etiquetas e legendas das obras.

Aqui, falando com vocês, ainda sinto como se eu estivesse sempre à deriva em algum lugar, levado pela correnteza, seja nos Estados Unidos ou até em Seul, onde nasci e cresci. E não é uma sensação muito agradável.

Provavelmente foi por isso que me apoiei tanto na arte. A arte e a música podem ter linguagens e meios de expressão um pouco diferentes, mas, de certo modo, são iguais, porque as duas tentam dizer alguma coisa.

Além disso, desde criança eu adoro colecionar coisas, mas, ao mesmo tempo, sinto uma certa culpa por isso. Eu preciso mesmo guardar tantas coisas desnecessárias de que nem preciso? Será que, no fim, eu não virei só um rico chato e entediante?

Bom, talvez seja isso mesmo. Mas pensei que seria legal se outras pessoas também pudessem ver tudo isso. Foi justamente por isso que eu quis mostrar a minha coleção para as pessoas.

Muitas obras da minha coleção foram criadas por artistas coreanos que trabalharam nos períodos da arte moderna e contemporânea, e tenho certeza de que muitos desses nomes ainda são pouco conhecidos fora da Coreia.

Nos últimos anos, vi muitas coleções de outras pessoas e cheguei à conclusão de que não existem muitas coisas capazes de falar de alguém com mais honestidade do que uma coleção que a pessoa construiu ao longo de muito tempo, investindo nela o próprio dinheiro, a própria vida, as próprias forças e até entregando a ela as paredes da própria casa.

E, nesse sentido, acho que esta exposição é uma apresentação bem detalhada de mim. E isso me deixa um pouco sem graça.

Mas a questão é que, às vezes, nem eu entendo por que juntei todas essas coisas. Por isso, dei a uma das seções o nome ‘Não sei, mas eu gosto’. Essa é a minha sensação sincera.

Do mesmo jeito, sempre sinto os meus próprios limites. Às vezes tenho um orgulho enorme de mim mesmo e, às vezes, sinto uma vergonha enorme de mim mesmo, e fico o tempo todo oscilando entre esses dois estados.

No fim, entendi que não consigo ser ninguém além de mim mesmo.

Por isso, para mim, o mais importante eram duas perguntas. A primeira: essa obra realmente me toca? E a segunda: agora, em 2026, esse artista e essa obra ainda têm algo a nos dizer?

Numa época em que tudo é consumido numa velocidade inacreditável, acredito que o olhar e a postura de alguns artistas do passado podem ter hoje uma ressonância ainda mais profunda.

Eu sempre sonhei em ver lugares, épocas, fronteiras e contextos culturais diferentes se misturando e convivendo em harmonia.

Talvez, no fim, tudo isso pareça um pouco caótico, porque nunca estudei história da arte formalmente e não sou curador. Mas, em qualquer área, alguém de fora às vezes pode trazer um vento novo.

Como não pertenço ao mundo da arte, acho que sou um pouco mais livre. Não tive preparo profissional e, principalmente, não fui preparado para fazer a legenda de uma obra caber em cem palavras. Essa foi a parte mais difícil.

É. Tentei aproveitar isso.

No último século, a Coreia passou por colonização, guerra e um desenvolvimento incrivelmente rápido.

Muita coisa desapareceu nesse tempo, mas, ao mesmo tempo, também foram criadas coisas surpreendentes e marcantes.

Como um jovem da Coreia, montei a minha coleção com a esperança de poder trazer para ela um olhar e uma sensibilidade mais novos, mais jovens e, talvez, melhores.

No fim, foi isso que me trouxe até esta exposição.

Da escolha das obras e da disposição delas até a apresentação e até as molduras, tentei reunir tudo o que eu gostava e tudo aquilo que, na minha opinião, poderia ser feito melhor.

Eu só tentei deixar esta exposição o mais interessante e nova possível. Espero que vocês consigam sentir isso.

Quero agradecer a todos do SFMOMA por me darem essa oportunidade honrosa e por me apoiarem durante quase dois anos.

Especialmente à América Castillo, cocuradora, que foi a primeira a propor essa ideia incrível.

À Hyoeun Kim, cocuradora, que apresentou a arte coreana a tanta gente em São Francisco.

E ao Jaehyun Han, que cuidou de toda a comunicação, tanto dentro da equipe quanto fora dela.

No fundo, foi um trabalho conjunto entre mim e o SFMOMA.

Claro que não consegui realizar absolutamente tudo o que sonhei. Então ficaram muitas ideias divertidas que enterramos no nosso próprio cemitério.

Se bem que, sinceramente, se eu tivesse realizado tudo o que sonhei, acho que a gente poderia ter se metido em problemas.

Por isso, acho que é justamente aí que está a beleza da nossa colaboração. E me deixa muito feliz que uma pessoa que não pertence ao mundo da arte tenha conseguido chegar tão longe.

Por favor, aproveitem a exposição. E muito obrigado por terem vindo.

Um grande abraço, São Francisco!

Desculpa… desculpa…

Eu queria dizer que isto é uma apresentação de mim. Espero que, com esta exposição, as pessoas possam me conhecer melhor, porque sinto que nela existe muito de mim mesmo.

E espero que as pessoas percebam como é divertido e alegre simplesmente vir e ver uma exposição assim.

É isso.”

Depois, alguém da imprensa perguntou: por que São Francisco? E a resposta veio sem pensar duas vezes:

“Acho que isso nem é uma pergunta, porque São Francisco é uma das cidades mais legais do mundo. É por isso. Obrigado.”

Depois, alguém da imprensa perguntou: por que São Francisco? E a resposta veio sem pensar duas vezes:

Acho que isso nem é uma pergunta, porque São Francisco é uma das cidades mais legais do mundo. É por isso. Obrigado.”

“Um rico chato e entediante.” Eu não consigo superar. O homem abre uma exposição num dos museus mais importantes dos Estados Unidos e a primeira coisa que ele faz é zoar a si mesmo por colecionar coisas demais. E quem coleciona qualquer coisa, seja arte, álbum, photocard ou caneca, sabe exatamente de que culpa ele está falando. Aqui em casa, pelo menos, o meu Right Place, Wrong Person está livre de qualquer culpa: esse é item de primeira necessidade.

Se quiser ver o discurso com os próprios olhos:

Os bastidores da abertura da exposição do Namjoon

O que aconteceu em volta da exposição do Namjoon nos dias da abertura renderia quase outro artigo. Separei os melhores momentos.

O catálogo e as palavras escritas à mão

Nos stories, o Namjoon mostrou o catálogo da exposição, com o título em coreano, 너와 나 사이, e várias palavras escritas à mão na capa, em inglês e coreano:

“Água azul Paisagem com amigos Pessoas Paixão Casa Photo Buddha! Terra de sombra (umber) Não sei explicar com palavras, mas eu gosto.”

São os nomes das oito seções, escritos como quem anota uma lista no caderno. E o ponto de exclamação no Photo Buddha diz muito sobre o humor dele.

A assinatura na parede

Logo na entrada da exposição do Namjoon, os visitantes são recebidos pela assinatura datada do Namjoon, acompanhada da frase sobre as harmonias aparentemente óbvias, mas estranhas. Ele mesmo compartilhou a foto nos stories. E, pelo que contou a imprensa que esteve lá, a caligrafia dele aparece em vários pontos da exposição, com trechos que vieram direto das anotações do caderno dele. Como alguém que vive lendo texto de parede em museu, eu garanto: isso é raríssimo. A maioria está em curadores e impresso.

O bolo do SFMOMA

Teve até bolo. A DESsert Avenue Bakery preparou um bolo inspirado na parceria entre o Namjoon e o SFMOMA, e ficou lindo demais. Queria um pedaço. Só um pedacinho.

A visita de Jean-Michel Othoniel

O artista contemporâneo francês Jean-Michel Othoniel, famoso pelas esculturas de contas de vidro gigantes, visitou a exposição do Namjoon e postou nos stories que estava muito feliz por estar em São Francisco e ver a exposição do RM. Quando um artista de verdade atravessa o país pra ver a coleção de um colecionador, meu amor, isso diz muito sobre a coleção.

O ARMY na calçada

A prévia de imprensa da exposição do Namjoon era só para convidados. Mesmo assim, segundo o San Francisco Chronicle, dezenas de ARMYs ficaram na calçada do museu na esperança de ver o Namjoon chegar. Duas amigas viajaram de Londres só para a semana de abertura, e uma delas contou ao jornal que estudou curadoria por causa do Namjoon. Eu li isso e pensei: é esse o efeito que ele tem. Tem gente que entra no mundo da arte pela porta que ele abriu. E isso não é pouca coisa.

Uma doação no mesmo dia

E como o Namjoon não sabe fazer uma coisa só por vez: no mesmo dia 29 de setembro em que a exposição do Namjoon foi apresentada à imprensa em São Francisco, ele doou 100 milhões de wons ao Museu Nacional da Coreia, para a compra de obras e peças para o acervo do museu. Ele é embaixador global do museu desde junho de 2026.

Namjoon e a arte: como chegamos até aqui

Pra quem está chegando agora no fandom, pode parecer que a exposição do Namjoon surgiu do nada, mas ela vem de quase uma década de “Namjooning”, o apelido que o ARMY deu para o hábito dele de passear por museus, galerias e parques, sempre compartilhando tudo nas redes. E isso vai virar livro, tá? Um dia eu conto pra vocês, né, Maga?

No discurso, ele contou que começou a ir a museus e a olhar a arte com atenção há oito anos. Em outras entrevistas, já tinha dito que começou a visitar museus durante as turnês do BTS, por tédio. Veja só onde o tédio levou esse homem.

Desde então, a relação dele com a arte coreana só cresceu:

  • Em 2020, no aniversário, ele doou 100 milhões de wons ao Museu Nacional de Arte Moderna e Contemporânea da Coreia para que livros de arte coreana fora de catálogo voltassem a ser impressos e chegassem a bibliotecas e escolas.
  • Em 2021 e em 2022, doou 100 milhões de wons por ano à fundação coreana que preserva e restaura patrimônio cultural coreano que está fora do país.
  • Em 2022, uma escultura de Kwon Jin-kyu da coleção dele foi emprestada para uma exposição do Museu de Arte de Seul. E ele narrou o audioguia da exposição de arte coreana moderna do LACMA, o Museu de Arte do Condado de Los Angeles. Ou seja, a voz dele já guiou visitantes num museu americano antes.
  • Em 2025, na Art Basel, na Suíça, virou embaixador global da Samsung Art TV e falou publicamente sobre o sonho de ter um espaço próprio para a coleção. A Samsung Electronics, inclusive, está entre as grandes apoiadoras da exposição no SFMOMA.
  • Em junho de 2026, virou embaixador global do Museu Nacional da Coreia.

E isso só pra pinçar o principal. E aí vem outubro de 2026 e a exposição do Namjoon no sétimo andar do SFMOMA. Faz todo o sentido do mundo.

Como visitar a exposição do Namjoon em São Francisco

Se você vai (e eu te invejo profundamente, mas de um jeito saudável – ou não), aqui vai o que você precisa saber antes de visitar a exposição do Namjoon. As informações abaixo são as divulgadas pelo museu até a publicação deste artigo, então confira sempre o site oficial da exposição antes de fechar qualquer plano.

Ingresso com horário marcado

A exposição do Namjoon exige ingresso com horário marcado para todo mundo, comprado online. E atenção, porque aqui tem uma pegadinha: o ingresso geral do museu não dá acesso à exposição. Você precisa reservar o ingresso específico chamado “RM x SFMOMA + General Admission”.

Além da entrada geral, a exposição cobra uma taxa extra de US$ 10 nos dias de semana e US$ 12 nos fins de semana e feriados. Membros do SFMOMA não pagam a taxa, mas também precisam reservar horário.

Pelo que o museu informou, os ingressos de dias de semana a partir de 5 de outubro estão disponíveis, assim como os fins de semana, exceto os primeiros sábados. A prévia para membros, de 1º a 3 de outubro, esgotou antecipadamente e havia uma “humilde” fila virtual de umas 10 mil pessoas. Coisa pouca.

Chegue no horário e não saia antes da hora

Quem tem ingresso precisa chegar no horário marcado, e não é permitido sair e entrar de novo na exposição. O museu diz que é para que o maior número possível de pessoas consiga visitar. Então vá ao banheiro antes. Sério.

Encore Pass: pra quem quer voltar várias vezes

O SFMOMA criou o Encore Pass, que custa US$ 75 e permite visitar a exposição do Namjoon quantas vezes quiser durante todo o período, com acesso às outras galerias do museu no mesmo dia. Ainda vem com um presente exclusivo, retirado só no local, e 10% de desconto na loja da exposição. Pra quem é ARMY, que não sabe assistir a uma coisa uma vez só, é praticamente feito sob medida.

A loja da exposição

Existe uma loja exclusiva da exposição do Namjoon, no 7º andar, e só entra quem tem o ingresso da exposição. Cuidado com o cartão de crédito.

Horários do museu

  • Segunda e terça: das 10h às 17h
  • Quarta: fechado
  • Quinta: do meio-dia às 20h
  • Sexta a domingo: das 10h às 17h

Leve fone de ouvido

O audioguia narrado pelo Namjoon é acessado pelo seu próprio celular, em inglês ou coreano. Leve fone de ouvido e bateria carregada. Você não vai querer perder uma palavra.

Perguntas frequentes sobre a exposição do Namjoon

Se você pulou direto pra cá (aff), sem problema. Estas são as dúvidas que mais devem surgir sobre a exposição do Namjoon.

Onde é a exposição do Namjoon?

A exposição do Namjoon, RM x SFMOMA: Between You and Me, fica no 7º andar do SFMOMA, o Museu de Arte Moderna de São Francisco, na 151 Third Street, em São Francisco, na Califórnia, Estados Unidos. Para entrar, é preciso reservar o ingresso específico da exposição, com horário marcado.

Até quando fica a exposição do RM no SFMOMA?

A exposição do Namjoon fica aberta ao público de 3 de outubro de 2026 a 7 de fevereiro de 2027. Antes disso, de 1º a 3 de outubro, houve uma prévia exclusiva para membros do SFMOMA.

Quantas obras tem a exposição do Namjoon?

A exposição do Namjoon reúne 178 obras: 142 da coleção pessoal dele e 36 do acervo do SFMOMA. As peças vão de uma escultura de barro de por volta do século 5 até obras de artistas contemporâneos nascidos nos anos 1990.

Quanto custa o ingresso da exposição do Namjoon?

Além do ingresso geral do museu, a exposição do Namjoon cobra uma taxa extra de US$ 10 nos dias de semana e US$ 12 nos fins de semana e feriados. Membros do SFMOMA não pagam a taxa. Quem quiser voltar várias vezes pode comprar o Encore Pass, por US$ 75.

O audioguia do Namjoon tem versão em português?

Não. O audioguia gravado pelo Namjoon está disponível em inglês e em coreano, e as duas versões são diferentes entre si, porque foram gravadas a partir de duas entrevistas separadas e sem roteiro. Aqui no Bangtan Now, a versão em inglês do audioguia do Namjoon está traduzida na íntegra.

Dá para ouvir o audioguia do Namjoon sem ir a São Francisco?

Sim. O SFMOMA disponibilizou o audioguia completo no site do museu, com 11 faixas: o prefácio, uma faixa para cada seção da exposição do Namjoon e os créditos. Dá para ouvir em inglês ou coreano, direto no navegador.

A exposição do Namjoon tem trilha sonora?

Tem. O SFMOMA publicou no Spotify a playlist RM x SFMOMA, com 10 músicas e 34 minutos, incluindo faixas de Sanullim, Lee Sora e Ryuichi Sakamoto.

A exposição do Namjoon vai vir para o Brasil?

Até agora, não há nenhum anúncio de itinerância da exposição do Namjoon. O SFMOMA informa que é a única apresentação da coleção nos Estados Unidos, e não há informação oficial sobre outros países. Se isso mudar, eu vou ser a primeira a surtar aqui.

Quem fez a curadoria da exposição do Namjoon?

A curadoria é do próprio Namjoon, em parceria com as cocuradoras América Castillo, gerente de projetos curatoriais do SFMOMA, e Hyoeun Kim, curadora assistente de pintura e escultura do museu. Namjoon escolheu as obras, escreveu os textos e gravou o audioguia; América Castillo foi quem propôs a exposição, e Hyoeun Kim trabalhou com ele na seleção e na organização das salas.

Entre você e eu

No fim do discurso, o Namjoon pediu desculpas duas vezes e voltou ao microfone pra dizer o que tinha esquecido: que aquela exposição era uma apresentação dele mesmo. Que ele esperava que as pessoas pudessem conhecê-lo melhor ali, porque sentia que havia muito dele naquelas salas.

E eu acho que é isso que me pega tanto. A gente passa anos tentando entender quem é o Namjoon pelas letras das músicas, pelo BTS, pelas entrevistas, pelas fotos de museu no Instagram, pelos álbuns solo, por pedacinhos aqui e ali que ele solta. E aí ele vai lá, praticamente pendura a própria sala de estar na parede de um museu, escreve cada legenda à mão, grava a própria voz explicando o que sente diante de cada quadro e diz: pronto, este sou eu. Não sei explicar tudo, mas eu gosto.

Eu, que vivo entre museus e entre músicas do BTS, nunca vi esses dois mundos tão perto um do outro. E ainda estou aqui, do outro lado do continente, com uma vontade absurda de atravessar a porta da exposição do Namjoon, lá no sétimo andar.

Agora me conte: se você pudesse escolher duas obras dessa exposição pra ver lado a lado, quais seriam? E se você vai a São Francisco, pelo amor de tudo, volte aqui e me conte como foi.

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