O BTS atrai ódio de fora por ser o maior grupo do pop atual. Mas estamos vendo que alguns dos ataques mais duros nascem dentro do próprio fandom. Entenda por que isso acontece.
Quem é ARMY passou por isso ou conhece uma ARMY que chegou no fandom bem assim: a cabeça não parecia nada bem, o relacionamento estava complicado, o dinheiro andava curto, a saúde ou a fé tinham entrado em crise, e o BTS apareceu meio por acaso, num vídeo recomendado ou numa música tocando no carro de alguém. Dali em diante, alguma coisa começou a se reorganizar. Por isso uma frase circula há anos no fandom, em comentários e cartazes de show: “o BTS salvou a minha vida”.
Não duvido de nenhuma dessas histórias, até porque é a minha história também. Mas chamar sete pessoas de salvadoras tem um custo, e quem paga a conta não é quem foi salvo. Porque o salvador é elevado para um patamar tão acima do humano que não tem direito de errar. E se decepciona por algum motivo (e vai decepcionar, porque é gente), a gratidão vira cobrança numa velocidade que assusta.
Se o BTS salva tanta gente, quem salva o BTS?
- O Preço de Ser o Maior Grupo do Mundo
- Solos, Multis e Shippers: A Seletividade que Corrói por Dentro
- Relações Parassociais: Onde Termina o Curtir e Começa a Obsessão
- O Algoritmo Premia o Ódio
- A História Recente Acendeu um Alerta (De Novo)
- Quem Salva o Salvador?
- O Que É Hate Train e Como Reconhecer
- Perguntas Frequentes sobre Hate Train e o Fandom do BTS
O Preço de Ser o Maior Grupo do Mundo
Uma parte do ódio é previsível e vem de fora, de fãs de outros artistas e de gente que torce o nariz para o K-pop por puro preconceito. A história da música pop está cheia disso. Os Beatles nunca foram unanimidade, os Rolling Stones muito menos, Madonna foi alvo por décadas e Michael Jackson apanhou da imprensa e do público até o fim. Hoje todos são tratados como realeza. O BTS chegou a esse patamar de grandeza e, com ele, recebeu o pacote completo.
Esse ódio faz barulho, mas pesa pouco para quem ama o grupo, porque vem de quem nunca amou. O que machuca é o que vem de dentro de casa. Porque aí a gente descobre que nem todo mundo é assim tão fã quanto diz. Alguns até fazem cosplay de hater, olha só.
Em 2026, um episódio envolvendo membros do BTS funcionou como um “chá revelação”. Fanbases e criadores de conteúdo que carregavam o 7 no nome por pura convenção mostraram que nunca tinham sido OT7. Estavam só esperando uma brecha para destilar seu desprezo por outros membros que não os seus favoritos.
Solos, Multis e Shippers: A Seletividade que Corrói por Dentro
Solos, multis e shippers fazem parte de qualquer fandom, ainda mais de um do tamanho do ARMY. É algo que aprendemos a aceitar, gostando ou não. São fãs, e alguns super dedicados, que fazem stream, votam, compram álbum e defendem com unhas e dentes aquele (ou aqueles) que escolheram amar. O problema é que não existe BTS sem o todo. BTS é 7, e eles deixam isso claro o tempo todo.
O solo enxerga os outros seis como coadjuvantes e, numa briga, como rivais. O multi, quando a polêmica envolve alguém do BTS, muitas vezes adere à corrente do outro fandom ou se declara isento. O shipper protege o casal que imaginou, alimentado por edits muito bem feitos, e abandona (quando não ataca) quem não cabe na história. Em um dia comum, essa seletividade passa despercebida. Numa crise, vira munição.
Relações Parassociais: Onde Termina o Curtir e Começa a Obsessão
Quem está no fandom há algum tempo com certeza já topou com alguém meio delulu das ideias – ou até foi um pouquinho assim (e tá tudo bem!). O problema é passar do ponto: acreditar na fantasia como se ela fosse realidade. O lado “delulu” do fã ultrapassa o limite do razoável quando ele simplesmente esquece que o idol é um ser humano, e não objeto de suas manias.
É o caso da shipper que jura que existe um relacionamento entre dois dos membros que “só não veio à tona” por forças ocultas. Daquele fã que sabe que o universo (HYBE inclusa) conspira contra o sucesso do seu fav. É a adolescente (às vezes não tão adolescente) que tem certeza absoluta que “tem uma chance” se um deles bater o olho nela. A lista é interminável.
Esse fenômeno tem nome, e foi parar no dicionário. Em novembro de 2025, o dicionário Cambridge escolheu parasocial (parassocial) como palavra do ano. A definição fala da conexão que alguém sente com uma pessoa famosa que não conhece, com um personagem de ficção ou até com uma inteligência artificial. Segundo o dicionário, as buscas pelo termo tiveram picos ao longo do ano, puxadas pela relação do público com celebridades e com chatbots.
Para quem é ARMY, talvez seja ainda mais fácil confundir realidade com ficção, principalmente porque o BTS estabeleceu com o fandom um grau de intimidade nunca visto. Lives no Weverse em que seu fav conversa olhando pra você, comendo com você, cantando para você. E para outros milhões de pessoas.
Mas imagina se alguém não está com a cabecinha legal? Pronto, o estrago está feito. De repente, JK cantou aquela música “querendo passar uma mensagem”. Certeza que Jimin estava incomodado com alguma coisa. Nam, então, com suas longas falas filosóficas, deve estar sofrendo tanto, coitado… E se Taehyung canta algo triste numa live, é isso! Há ali uma mensagem secreta que só a iluminada consegue decifrar.
E por aí vai.
É óbvio que o BTS ama o ARMY assim como o ARMY ama o BTS, mas é um amor de parceria entre um grupo de artistas e milhões de fãs no mundo todo. Toda essa intimidade pode criar a falsa sensação de que a gente sabe tudo sobre aqueles 7 seres humanos. Não, não sabemos, e é bom que seja assim mesmo. Só que essa sensação íntima demais pode gerar distorções de entendimento.
No espaço vazio entre o membro que se comunica através de uma live e a pessoa que assiste, muita gente projeta o que quer. Espera que o artista pense e aja como esperado, e quando ele não corresponde, a frustração é real, só que nasceu da expectativa de quem projetou.
O BTS conhece de perto o lado extremo dessa história. Em junho de 2024, no evento de abraços com mil fãs que marcou a volta de Jin do serviço militar, uma japonesa de cinquenta e poucos anos beijou o pescoço dele sem consentimento e depois descreveu a cena num blog. Acabou sendo denunciada por assédio sexual. Um ano depois, na noite em que Jung Kook deixou o Exército, uma chinesa na casa dos trinta foi presa tentando digitar a senha da porta do apartamento dele, em Seul. E tem o caso da brasileira de trinta e poucos anos que foi à casa de Jung Kook cerca de 20 vezes em dezembro de 2025, tocou a campainha centenas de vezes e deixou bilhetes. Foi detida, voltou mesmo com ordem de restrição e foi indiciada em março de 2026 por perseguição e invasão.
São casos raros, e quase ninguém se reconhece neles. Mas a lógica que leva alguém a digitar a senha da porta de um ídolo é a mesma, em escala muito menor, que faz outra pessoa se sentir traída porque dois membros foram a um show. Nos dois casos, o fã acredita ter direito sobre a vida de quem nunca o conheceu. A diferença é que o segundo não precisa sair de casa. Basta um post nas redes sociais.
O Algoritmo Premia o Ódio
Fofoca sempre existiu. Antes, ela morava no bairro, na janela das senhoras que vigiavam a rua, no corredor da escola e no almoço de domingo. As redes sociais pegaram essa janela e deram a ela alcance planetário.
A engrenagem é conhecida: o algoritmo entrega o que engaja, e poucas coisas engajam tanto quanto a raiva. Um post acusando um membro do BTS rende mais comentários e compartilhamentos do que qualquer campanha de stream. Quem ataca ganha visibilidade. Quem defende passa horas tentando conter o estrago e raramente alcança o mesmo público.
Um exemplo dá a medida da distância. Em junho de 2025, SUGA doou 5 bilhões de wons (cerca de 20 milhões de reais na cotação da época) ao Hospital Severance, em Seul, para criar um centro de tratamento para crianças com autismo que hoje leva o nome dele. A notícia saiu na imprensa, foi celebrada pelo fandom e sumiu das timelines em poucos dias. Os posts sobre o caso da patinete elétrica, de um ano antes, continuam circulando.
Por isso o hate interno cresce: ele dá resultado. Quando o ódio rende likes, a vontade de performar nas redes fala mais alto que a lealdade ao grupo, e até quem se diz ARMY entra na onda com gosto.
A História Recente Acendeu um Alerta (De Novo)
Recentemente, os ataques mais duros caíram sobre RM e j-hope. Em 12 de agosto de 2026, RM e j-hope foram ao show que Chris Brown e Usher fizeram juntos no Rogers Stadium, perto de Toronto. Eles postaram a presença no show e, pouco depois, Chris Brown publicou fotos dos bastidores com os dois.
O histórico do cantor americano é conhecido: em 2009, ele se declarou culpado de agredir Rihanna, então sua namorada. Então, o incômodo com Chris Brown é legítimo. Só que ninguém levou em consideração o quanto ele é referência no K-pop: grupos masculinos e femininos fizeram challenges recentes com músicas dele, já o citaram como influência, já foram aos seus shows e recomendaram suas faixas aos fãs. Por que o hate inteiro sobrou para dois membros do BTS?
Simples. Eles são o BTS. Quanto maior o alcance de um artista em nível global, maior o volume de ódio e mais rápida a sua propagação. Outros artistas não são arrastados por esse “hate train” porque não são relevantes o suficiente para isso.
O tamanho do grupo explica o volume do ataque. A origem é outra história: desta vez, boa parte das pedras veio de dentro de casa. Circulou pelo fandom a frase “vou ao show do BTS, mas depois vou dropar o grupo”, repetida por perfis que se diziam OT7. No começo parecia uma frase vazia, como tantas outras. Em poucos dias, virou selo de caráter.
Neste caso, a gente viu também muito feminismo performático. Feminismo de verdade dá trabalho, custa tempo e, muitas vezes, relações e empregos. Um post de repúdio a dois homens que foram a um show custa um clique e rende likes, além de um verniz de convicção social.
Quem Salva o Salvador?
O fandom tem, sim, um mecanismo de proteção: o ARMY que nunca embarcou em nenhuma onda de ódio contra nenhum dos sete e continua defendendo o grupo inteiro, nas redes e fora delas.
Mas o algoritmo joga contra. O ódio sempre terá mais likes, mais reposts e mais gente disposta a alimentá-lo do que gente disposta a proteger.
Talvez a resposta esteja mais perto do que imagina. Nas letras das músicas do BTS, e particularmente nas músicas de ARIRANG.
“NORMAL”, talvez a faixa que vá mais direto a este assunto, não descreve apenas a pressão que há em julgar “normal” o que não deveria ser normalizado na vida de cada um de nós, mas talvez e principalmente, um retrato do que é ser alimentado por ódio e amor em igual medida enquanto o fandom (nós) “pedimos tudo deles” e eles chamam “essa merda de NORMAL”. A análise completa de NORMAL, com letra e tradução, está aqui no Bangtan Now.
Complete “NORMAL” com “they don’t know ‘bout us” (“eles não sabem nada sobre nós”) e o apelo emocional de “Come Over” e pronto, bem-vindo ao carrossel emocional (“Merry Go Round”) do BTS pedindo para ser visto não apenas como artista, mas como ser humano. E, sim, como RM disse em uma live, essas coisas são diferentes. O artista é aquele que faz música, se apresenta, abre live, conversa contigo, dobra suas cuecas e limpa a casa para milhões de pessoas acompanharem, de boas. O ser humano é alguém que a gente não vai conhecer nunca em sua plenitude, e é ótimo que assim seja.
Por mais bacana que pareça ser do BTS, eu não sei se conseguiria carregar nas costas as expectativas de tanta gente machucada. Porque, no fundo, boa parte das pessoas que projeta neles coisas impossíveis está vivendo por procuração, e isso é tão triste quanto doentio.
Entendo que às vezes estejamos tão feridos que saímos por aí à procura de salvadores. E que nessa busca, muitas vezes os primeiros acordes de “Sea” façam toda diferença num dia escuro da alma.
Mas aí eu preciso devolver a pergunta do título. Agora que o BTS te salvou, quem salva o salvador?
Talvez ninguém a não ser eles mesmos, tão humanos quanto nós. Mas a gente pelo menos pode aqui fazer um pacto de ARMY: não contribuir para o ódio das redes. Para isso, vale aprender a reconhecer um hate train e saber o que fazer quando ele passar por você.
O Que É Hate Train e Como Reconhecer
Hate train (algo como “trem do ódio”) é o nome que os fandoms dão a uma onda de ataques contra um artista que ganha passageiros a cada repost. Quase sempre parte de uma crítica legítima e, no caminho, recebe narrativas de antis, desinformação e convocações de boicote. O guia abaixo mostra as fases e o que fazer quando o trem passar.

Perguntas Frequentes sobre Hate Train e o Fandom do BTS
Por que o BTS é alvo de tanto hate?
Pelo tamanho. Quanto maior o alcance de um artista, maior o volume de ódio e mais rápida a propagação. Parte dos ataques, porém, nasce dentro do próprio fandom, alimentada pela seletividade de alguns fãs e por algoritmos que premiam a raiva com engajamento.
O que significa OT7?
OT7 (de “one true seven”) é o fã que apoia os sete integrantes do BTS, e não apenas um membro ou uma dupla.
O que é relação parassocial?
É a conexão que alguém sente com uma pessoa famosa que não conhece, com um personagem de ficção ou com uma inteligência artificial. Parasocial (parassocial) foi escolhida palavra do ano de 2025 pelo dicionário Cambridge.
O que fazer quando um hate train atinge o BTS?
Não alimentar com quotes ou respostas, procurar a fonte antes de compartilhar, não tratar alegação como fato, não marcar outras pessoas para a briga e, quando não houver nada produtivo a acrescentar, denunciar, bloquear e seguir em frente.





